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Blog ou Blogue, na grafia portuguesa, é uma abreviatura de Weblog. Estes sítios permitem a publicação e a constante atualização de artigos ou "posts", que são, em geral, organizados através de etiquetas (temas) e de forma cronológica inversa.


A possibilidade de os leitores e autores deixarem comentários, de forma sequencial e interativa, corresponde à natureza essencial dos blogues
e por isso, o elemento central do presente projeto da Biblioteca Escolar (BE).


O BlogBESSS é um espaço virtual de informação e de partilha de leituras e ideias. Aberto à comunidade educativa da ESSS e a todos os que pretendam contribuir para a concretização dos objetivos da BE:

1. Promover a leitura e as literacias;

2. Apoiar o desenvolvimento curricular;

3. Valorizar a BE como elemento integrante do Projeto Educativo;

4. Abrir a BE à comunidade local.


De acordo com a sua natureza e integrando os referidos objetivos, o BlogBESSS corresponde a uma proposta de aprendizagem colaborativa e de construção coletiva do Conhecimento, incentivando ao mesmo tempo a utilização/fruição dos recursos existentes na BE.


Colabore nos Projetos "Autor do Mês..." (Para saber como colaborar deverá ler a mensagem de 20 de fevereiro de 2009) e "Leituras Soltas..."
(Leia a mensagem de 10 de abril de 2009).


Não se esqueça, ainda, de ler as regras de utilização do
BlogBESSS e as indicações de "Como Comentar.." nas mensagens de 10 de fevereiro de 2009.


A Biblioteca Escolar da ESSS


PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A infância enquanto tema transversal em Fernando Pessoa

Trabalho realizado pela aluna Inês Chim, 12º I, 2013/14
Prof. João Morais


        A infância é um tema recorrentemente explorado na obra de Pessoa, não só em Pessoa ortónimo mas, também, nos seus heterónimos, designadamente em Alberto Caeiro, em Álvaro de Campos e em Ricardo Reis.
       A infância é representada tanto em Fernando Pessoa ortónimo como em Campos, enquanto a época feliz, o tempo em que o sujeito poético experimenta alegria, o que se opõe à realidade do presente, ou seja, há uma oposição passado presente, que se configura ao nível da matéria lírica. O passado, o tempo da infância, é, assim, o tempo da felicidade, enquanto o presente, a idade adulta, representa o tempo da infelicidade e do tédio.
        Um dos textos representativos desta ideia em Fernando Pessoa ortónimo é “A criança que fui chora na estrada”. Neste poema, o sujeito poético mostra a saudade do passado e a angústia do presente (“Mas hoje, vendo que o que sou é nada,/ Quero ir buscar quem fui onde ficou”). A infância em Fernando Pessoa ortónimo apresenta-se, também, relacionada com a fantasia, com a vertente lúdica, com a transfiguração da realidade, presente no poema “Chuva Oblíqua (parte VI)”, onde essa ideia é visível (“O maestro sacode a batuta […] Lembra-me a minha infância, aquele dia/ Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal […]”). No poema “Quando as crianças brincam” a infância aparece relacionada com a nostalgia não só da infância como, também, da inocência (“Quando as crianças brincam [...] Qualquer coisa em minha alma/ Começa a se alegrar [...] E toda aquela infância/ Que não tive me vem [...]”). No texto “O menino da sua mãe”, a perda da infância institui a morte simbólica pelo afastamento da ternura e dos afetos (“Tão jovem! que jovem era!/ (Agora que idade tem?)/ Filho único, a mãe lhe dera/ Um nome e o mantivera/ in «O menino da sua mãe»”).
Álvaro de Campos apresenta, de uma maneira parecida com Fernando Pessoa ortónimo, a nostalgia da infância. Tal como Pessoa, Campos considera a infância o tempo da felicidade, o que se opõe ao presente, no qual é infeliz. O poema “Aniversário” mostra isso mesmo: a felicidade sentida no tempo da infância (“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,/ Eu era feliz e ninguém estava morto”) e o tédio do presente (“O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, […]/ O que eu sou hoje é terem vendido a casa,/ É terem morrido todos […]”), antítese reatualizada do ortónimo. Neste poema é quase feito um retrato da infância do sujeito lírico, uma descrição das rotinas festivas que se passavam na sua infância (“A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,/ O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-,/ As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa […]”). No poema “Datilografia”, a infância aparece relacionada com a vida e a cor (“Outrora quando fui outro, eram castelos e cavalarias […] Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,/ Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes/ Outrora…”). No texto “Ode marítima”, apesar de se tratar de um texto que se inscreve, manifestamente, na fase futurista de Campos, o sujeito poético mostra a sua vontade de regressar ao passado, ao tempo feliz, e de lá permanecer (“Ó meu passado de infância, boneco que me partiram!/ Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição,/ E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente!”).
         Alberto Caeiro, sendo sensacionista, considera a infância um sinónimo de pureza, inocência e simplicidade porque a criança não pensa, e é isso que Caeiro defende. Um dos exemplos representativos desta ideia é o poema “Criança desconhecida e suja brincando à minha porta”, no qual o sujeito poético admira a criança e a sua forma de sentir (“O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas./ Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão […]”) e demonstra, mais uma vez, o seu desprezo pelo pensar (“Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,/ E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar”). No poema “Num meio-dia de fim de primavera”, há um retrato de uma criança: o menino Jesus, que apresenta características diferentes das quais estamos acostumados. Caeiro descreve-o como uma criança vulgar, que faz as mesmas diabruras que as outras crianças (“Vi Jesus Cristo descer à terra./ Veio pela encosta de um monte/ Tornado outra vez menino,/ A correr e a rolar-se pela erva/ E a arrancar flores para as deitar fora/ E a rir de modo a ouvir-se de longe”). Mais tarde, Caeiro diz ser o menino que o acompanha (“É uma criança bonita de riso e natural./ Limpa o nariz ao braço direito,/ Chapinha nas poças de água,/ Colhe as flores e gosta delas e esquece-as […] O Menino Jesus adormece nos meus braços/ e eu levo-o ao colo para casa”). O retrato de Jesus, neste texto, aproxima-se do resto das outras crianças e transparece aquilo que Alberto Caeiro entende que deve ser a infância: a época da simplicidade, o tempo em que a criança não pensa, apenas vive e sente.
           Em Ricardo Reis, o tema da infância ocorre enquanto matéria lírica com valor simbólico: é o lado oposto da “velhice” da qual ele tem tanto medo, o que se encontra explícito no poema “Sofro, Lídia, do medo do destino/Sem renovar/ Meus dias, mas que um passe e outro passe/ Ficando eu sempre quase o mesmo; indo/ Para a velhice como um dia entra/ No anoitecer”). A infância é sinónimo do primado da objetividade, do isolamento na Natureza, longe dos adultos, que fizeram a civilização (“Pagãos inocentes da decadência”, in “Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio”).
                Podemos concluir que a infância é um tema transversal na poética de Fernando Pessoa, ainda que com configurações diferentes: Pessoa ortónimo e Campos consideram a infância o tempo da felicidade, que se opõe ao presente; já Caeiro olha para a infância com olhos diferentes, considerando-a um modelo de comportamento. Por fim, em Reis, o que prevalece no tema da infância é sobretudo o valor simbólico, a idade de ouro, que representa o seu confronto com a experiência da realidade do poeta, ser que se defende em vão da inexorabilidade do destino e da morte.