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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Amor de Perdição: uma reactualização do trágico na literatura

Trabalho realizado por Bruno Pereira, 11º I, 2012/13

 Prof. João Morais

A obra Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, fala do amor proibido entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, membros de famílias rivais da cidade de Viseu, que incorrem no desafio dos limites (hybris). É uma novela trágica, na qual os protagonistas enfrentam difíceis provações com o objetivo de alcançar a felicidade no amor – o amor espiritual, que poderá ocorrer apenas após a morte (post mortem).

Como traço da estrutura trágica de Amor de Perdição, atentemos no destino trágico do triângulo formado por Teresa, Simão e Mariana.

Teresa, jovem apaixonada, enfrenta vários obstáculos que tenta superar para a realização desse seu amor. Um desses impedimentos é o seu pai, Tadeu de Albuquerque, que pretende casá-la com Baltasar Coutinho, primo da jovem (“Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Baltasar, minha filha […] conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência”). Não conseguindo que a filha concorde com tal matrimónio encarcera-a num convento – inicialmente em Viseu enquanto esperava por ser admitida no de Monchique, no Porto –, o que leva a que ela se afaste do seu amado. Por desafiar a autoridade do seu pai, o sofrimento de Teresa e de Simão aumenta (pathos), o que se encontra bem patente na correspondência epistolar entre os jovens, por exemplo, no capítulo VII: “Ama-me assim desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto”.

Ao lado da narrativa, vão surgindo notações do fatalismo (ananké), que marcou a vida de Simão, por exemplo o risco de morte à nascença (“Morto me disseram que tinhas nascido […]”).

Após algumas peripécias, Teresa continua no convento, Simão é preso por assassinar Baltasar Coutinho e é enviado para o desterro na Índia como pena pelos seus atos, acentuando-se, deste modo, o sofrimento, que atingirá um ponto culminante: a morte dos amantes (climax). Já no momento em que Simão embarca no navio que o levará para a Índia, recebe a notícia de que Teresa faleceu. É sobretudo no capítulo XX que ocorre a anagnórise e a peripécia, respetivamente o reconhecimento e a mudança do rumo dos acontecimentos. Após a morte de Teresa, é Simão quem morre vitimado de febre e delírio, tal como Mariana, que, desgostosa pela morte do seu amado, se lança às “envoltas águas do mar”, ocorrendo, assim, o desenlace (catástrofe). Devido ao desafio dos limites pelos heróis trágicos, dá-se o seu aniquilamento de modo a reestabelecer o equilíbrio inicial.

Em suma, reatualiza-se, de facto, uma estrutura trágica em Amor de Perdição, dado que as personagens seguem irrefletidamente os ímpetos do seu coração. Há uma intervenção de forças que transcendem o indivíduo e que o dominam. Perpassa toda a obra a emblemática duma paixão devida à não observância das conveniências e regras sociais.

   Bruno Pereira

 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Proposta de Correção do Teste de Português - 11º I

Trabalho realizado pelos alunos Astha Corrêa, Maria Kopke e e Inês Chim, 2012/13
Prof. João Morais

I (Astha Corrêa)

1. A passagem acima transcrita localiza-se, quanto à estrutura externa, no Cap. IV, que é onde, ao nível da estrutura interna, o orador critica os peixes por se comerem uns aos outros e os aproxima dos homens pelos defeitos que estes também têm – a corrupção, a exploração, o roubo (“comem-no os oficiais dos órfãos […]; come-o o Médico […]; come-o o sangrador […]; come-o a mesma mulher […].”). Ainda quanto à estrutura interna, este excerto pertence, assim, à Confirmação, parte do Sermão onde o Padre António Vieira repreende os vícios gerais dos peixes (“[…] os peixes que se comem uns aos outros.”).

2. Nesta passagem, o efeito expressivo da aliteração das oclusivas ([p] [d] [k]) deve-se ao facto de as mesmas consoantes sugerirem a ideia de destruição, que se aplica à ação da condição humana na «terra» (“o pobre defunto”), sinédoque de vermes que decompõem os cadáveres humanos, e na «terra», enquanto sinédoque de homens que roubam e exploram o seu semelhante.

3. O Padre António Vieira, neste excerto, utiliza dois tipos de argumentos: argumento de autoridade, ao recorrer à dignidade inquestionável e às palavras de Santo Agostinho no Evangelho (“Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, preversisque cupiditatibus facit sunt veluti piscis invicem se devorantes”); e o argumento empírico, ao repreender o vício dos peixes com base no conhecimento que resulta da observação do que ocorre na natureza – o de comerem-se uns aos outros –, associando-o ao traço distintivo do homem: a antropofagia social (“[…] vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas [...]? Pois aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer”).

4. A analogia que se realiza no texto assenta no signo “terra” na sua plurissignificação: em sentido literal (“ainda o pobre defunto o não comeu a terra”) e “terra” em sentido figurado (“e já o tem comido toda a terra”). “Terra”, em sentido literal, refere-se ao solo, à terra em concreto que, no texto, é sinédoque de bichos, vermes, e significa o lugar onde os corpos mortos vão entrar em decomposição. “Terra”, em sentido figurado, sinédoque de homens, refere-se ao lugar onde ocorre o roubo, a exploração, que os homens praticam na cidade (“Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores”).

Trata-se, assim, duma analogia porque, a partir do significante duma palavra, associam-se nexos diferentes com ela relacionados. Da terra enquanto lugar de morte para homens e de vida de vermes passamos para terra enquanto lugar de vida para homens. Tudo é a terra e tudo é a destruição na condição humana: na vida como na morte.

II (Maria Kopke)

1. O Zé exortou os presentes para se implicarem mais nos problemas sociais.

O Zé exortou os presentes - Oração subordinante: é a parte do período que é estruturante, pois o seu GV irá selecionar um complemento oblíquo, que é o resto do período.

para se implicarem mais nos problemas sociais - Oração subordinada completiva (função de complemento oblíquo) Esta oração (=constituinte) tem se ser realizada na frase (= elemento essencial da frase), sob pena de o período perder a gramaticalidade:

* O Zé exortou os presentes

2. Evocaste problemas que teremos de resolver.

Evocaste problemas- Oração subordinante: é a parte do período que é estruturante; pode ocorrer sem o resto do período, ao contrário da 2ª, que é estruturada (= subordinada) a partir do GN problemas da principal.

Que teremos de resolver- Oração subordinada adjetiva relativa restritiva.

É adjetiva porque comuta com um adjetivo: Evocaste problemas importantes.

É relativa porque é introduzida por um pronome relativo: QUE. Esta palavra substitui o GN que introduz a 2ª oração, estabelecendo uma relação com a anterior:

Transformação:

1ª oração: Evocaste problemas.
2ª oração: teremos de resolver [problemas].

É ainda restritiva porque se encontra a restringir o domínio de problemas.

3. Quem mais adivinha mais erra

Quem mais adivinha - Oração subordinada substantiva relativa sem antecedente (exerce a função de sujeito porque comuta com um GN, que transmite a flexão de pessoa (3ª) e nº (sing.) ao verbo, e, ainda, porque comuta com uma forma de nominativo (= suj.) do pronome pessoal: ELE/ELA)

É substantiva porque comuta com um GN: O Zé [erra mais].

É relativa sem antecedente já que fica implícito um GN substituído pelo pronome relativo QUEM.

Mais erra-Oração subordinante: é a parte do período que é estruturante; pode ocorrer sem o resto do período.

4. O Zé partiu para Roma; A Ana, para Barcelona

O Zé partiu para Roma; - Oração coordenada copulativa assindética.

A Ana, para Barcelona.- Oração coordenada copulativa assindética.

Ambas têm independência gramatical, com valor de adição, e são justapostas:

O Zé partiu para Roma e a Ana partiu para Barcelona.

Ou

Não só o Zé partiu para Roma como também a Ana [partiu] para Barcelona.

5. A tarefa de olhar pelas crianças é gratificante

A tarefa é gratificante - Oração subordinante: é a parte do período que é estruturante; pode ocorrer sem o resto do período.

De olhar pelas crianças - Oração subordinada completiva.

É completiva porque tem a função de complemento nominal (do GN A tarefa).


III (Inês Chim)


«Se Vieira procura, muitas vezes, conduzir a opinião pública, transformando o púlpito em tribuna política, o facto nada tem de excecional: no século XVII, o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais, à televisão, enquanto instrumentos nas mãos dos governantes.»
                                Jacinto do Prado Coelho, «Oratória», in Dicionário de Literatura, Liv. Figueirinhas

No Sermão de Santo António aos Peixes, o orador privilegia, de facto, a vertente de combate de ideias, que se inscrevem numa grande variedade de domínios, que acabarão por refletir o pensamento de grande homem do mundo que foi o Padre António Vieira.

No capítulo I, o exórdio, o Padre António Vieira começa por utilizar um conceito predicável (“Vos estis sal terrae”: “Vós sois o sal da terra”) que, alicerçado na autoridade de S. Mateus, nos permitirá concluir que Vieira defende que os homens não querem receber a verdadeira doutrina (“ não se deixam salgar”). Para reforçar esta atitude dos homens e os seus defeitos, Vieira recorre à figura da antítese entre peixes e homens ao longo dos capítulos II e III. Deve fazer-se notar, ainda, a referência ao Santo António, que, em muitos casos por analogia com os peixes, é o exemplo a ser seguido pelo auditório.

No capítulo II, inicia-se a construção de uma estrutura alegórica e a Divisão do sermão: primeiro, serão pregados os louvores dos peixes e, seguidamente, os seus defeitos. Ainda neste capítulo, dá-se a Confirmação, expondo-se as qualidades gerais dos peixes. Temos então as divinas – obediência, ordem, quietação e atenção (“[…] aquela obediência […] e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus […]”) – e as naturais – não se deixam domesticar pelo homem, ao contrário de outros animais (“[…] Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam […]”). Ocorre, então, a antítese entre peixes e homens, em que os peixes assumem um valor positivo.

No terceiro capítulo, o Padre António Vieira evoca as qualidades particulares de quatro peixes: o Peixe de Tobias, cujo fel cura a cegueira do pai e cujo coração afasta o demónio da casa (sentido literal) – também Santo António, com o fel, cura a cegueira dos homens e utiliza o coração para afugentar o mal humano (sentido figurado) –; a Rémora, que se pega ao leme da nau e a amarra (sentido literal) – também a língua de Santo António domou a fúria das paixões humanas: Soberba, Vingança, Cobiça e Sensualidade (sentido figurado) –; o Torpedo, que faz tremer o braço do pescador, impedindo-o de pescar (sentido literal) – Santo António fez tremer vinte e dois pescadores que ouviram a suas palavras e se converteram (sentido figurado); e o Quatro-olhos, que se defende dos peixes e das aves (sentido literal). Este é, para além disso, o peixe que ensinou o pregador a olhar para o Céu (para cima) e para o Inferno (para baixo).

No capítulo IV, é iniciada a repreensão aos peixes com os seus defeitos gerais: comem-se uns aos outros, mesmo sendo do mesmo elemento, da mesma pátria, da mesma cidade (“[…]da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! […]”); e são ignorantes e cegos ao ponto de se deixarem explorar. Neste capítulo os peixes assumem o valor negativo antes pertencente apenas aos homens (“[…] Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós […]”), pelo que o recurso estruturante é a analogia e já não a antítese.

De seguida, inicia-se a repreensão aos peixes relacionada com os seus defeitos particulares e Vieira refere-se a outros quatro peixes: os roncadores, que têm como defeitos a arrogância e o orgulho (“[…] É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?![…}”) , traços que se reatualizam, ao nível do homem, com Pedro, Golias, Caifás e Pilatos; os pegadores, devido ao facto de serem parasitas (“[…] sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas tal sorte se lhes pagam aos costados, que jamais os desferram […]”), características que se reatualizam em toda a família da corte de Herodes e em Adão e Eva; os voadores, que são presunçosos, ambiciosos e caprichosos (“[…] matai-vos a vossa presunção e o vosso capricho […] Grande ambição é que […] queira outro elemento mais largo […]”), aspetos que se reatualizam em Simão mago; e o polvo devido à sua hipocrisia e traição (“ […] o dito Polvo é o maior traidor do mar […]”), ultrapassando Judas enquanto símbolo.

Por fim, no capítulo VI, dá-se a peroração em que Vieira louva Deus como reforço da crítica e afirma que o sermão não irá acabar em Graça e Glória porque o auditório – homens ao nível da comunicação, entenda-se – não é detentor de tais qualidades.

Em síntese, podemos concluir que o Sermão de Santo António aos Peixes tem, de facto, uma vertente de combate de ideias pela crítica que é feita aos homens e aos seus comportamentos. Para a efetivação dessa mesma crítica, o orador recorre à alegoria e a analogias ao longo de todo o sermão. Os signos que se produzem no texto configuram-se com um significado coerente ao nível da comunicação, que é dirigida aos interlocutores habilitados a descodificar a denúncia e os objetivos edificantes que serviram de exemplo para os homens, que “se não deixam salgar”. O Padre António Vieira tem, então, como fim da pregação do sermão a mudança de comportamentos, podendo, de facto, afirmar-se que o seu discurso, ultrapassando a simples evangelização no sentido mais religioso, privilegia a vertente de combate de ideias.

Proposta de Correção do Teste de Português - 11º B

Trabalho realizado pelos alunos Inês Pinto Basto, Rafael Oliveira e Inês Chim, 2012/13

 Prof. João Morais                                                                                                                                     

Tenere lupum auribus.

Grupo I (Inês Pinto Basto)

1. Relativamente à estrutura externa, a passagem transcrita localiza-se no capítulo V, parte do Sermão onde, ao nível da estrutura interna, se abordam os defeitos particulares de cada peixe. Neste caso, são os “pegadores” que o orador explora: “Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram.”

Ainda, relativamente à estrutura interna, a passagem transcrita localiza-se na Confirmação visto que se apresentam as provas que validam o que o orador se propôs tratar no início do Sermão (“a terra não se deixa salgar”) e do capítulo V: “Nesta viagem, de fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equacional, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes.”

2. O orador fala dos “pegadores” enquanto metáfora de homens. Os defeitos dos peixes que Vieira explora correspondem, por analogia, aos defeitos dos homens. Os peixes “pegadores”, que vivem colados aos costados dos peixes grandes, simbolizam o parasitismo e a dependência dos homens, que, na «Cidade», exploram os mais ricos e poderosos: "O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.”

3. O orador utiliza argumentos de autoridade, na medida em que recorre ao evangelista S.Mateus enquanto figura credível, cujas dignidade e palavra são irrefutáveis: “Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra.”.

Utiliza também argumentos empíricos, resultantes da sua experiência da vida quer dos homens quer dos peixes: “[…] não parte vice-rei ou governador para as conquistas que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhe matem a fome, de que lá não tinham remédio.”

4. Neste caso, “pegador” é uma palavra com dois ou mais significados e é um exemplo de analogia. No sentido literal, que é o da espécie animal, refere-se aos peixes: “Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manjares naturais, que os hóspedes ou companheiros.”.

No sentido figurado, refere-se aos homens e quer dizer que eles se exploram uns aos outros: “Morto Herodes, diz o evangelista, apareceu o anjo a José no Egito, e disse que já se podia tornar para a pátria porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino”.

Salienta-se, ainda, ao nível do sentido figurado da mesma palavra, o exemplo de David, que adere à mensagem de Deus: “Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est.”. Pegador é também o que segue outro referente – Deus – enquanto excelência, omnipotência, divindade…

 II (Rafael Oliveira)

Versão A

1. O Zé nasceu em 15 de agosto de 1996 e entrou na escola aos seis anos.

Divisão:
1ªoração:
O Zé nasceu em 15 de agosto de 1996.àOração coordenada sindética
2ªoração:
E entrou na escola aos seis anos.àOração coordenada copulativa sindética

A conjunção “E” é copulativa ou aditiva, pois adiciona-se a uma outra informação da qual não depende nem faz depender.
Podemos suprimir a conjunção e e a frase continuará gramatical.
O Zé nasceu em 15 de agosto de 1996. Entrou na escola aos seis anos.

2. Desprezaste hipóteses que não são menos importantes.

Neste caso o pronome “que” está a introduzir uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva. Trata-se dum pronome relativo, pois, dividindo a frase complexa em duas simples, obtemos:

Divisão:
1ªoração
Desprezaste hipóteses.à Oração subordinante
2ªoração
Que não são menos importantes.= As hipóteses não são menos importantes

Que não são menos importantes.= à Oração subordinada adjetiva relativa restritiva

O pronome está a restringir a referência de hipóteses: apenas aquelas que são menos importantes Podemos também substituir este G. Adjetival por outro, razão pela qual a oração é adjetiva:

Ex: Desprezaste hipóteses verdadeiras.

3. Quem mais critica pactua, por vezes, com a mediocridade.

Divisão:
1ªoração
Quem mais critica.à Oração subordinada substantiva relativa (sem antecedente)
2ªoração
Pactua com a mediocridade.à Oração subordinante

A conjunção QUEM está a substituir um grupo nominal, um GN, que está implícito.

A 1ª oração pode ser substituída por um GN sem interferir com a gramaticalidade da frase, razão pela qual se trata de uma oração substantiva.

4. O Zé foi para Paris; a Ana, para Berlim.

Divisão:
1ªoração
O Zé foi para Paris.àOração coordenada
2ªoração
A Ana [foi] para Berlim.àOração coordenada copulativa assindética

Se dividirmos as orações com uma conjunção copulativa, a frase continua gramatical e só conseguiremos fazê-lo de forma correta com conjunções ou locuções copulativas, por exemplo:

Ex: O Zé foi para Paris e a Ana [foi] para Berlim.

A conjunção usada no 1º exemplo é copulativa ou aditiva pois adiciona-se a uma outra informação da qual não depende nem faz depender.

Se substituirmos por uma conjunção disjuntiva por exemplo, a oração fica agramatical:

*Ou o Zé foi para Paris ou a Ana para Berlim.

É assindética pois a conjunção não está presente.

5. A tarefa de tomar conta das crianças é gratificante.

Divisão:
1ªoração
A tarefa é gratificante.à Oração subordinante
2ªoração
de tomar conta das crianças.à Oração subordinada completiva não finita (com a função de complemento nominal). Suprimindo esta oração (este constituinte), a frase, fora de contexto, fica gramatical:

*A tarefa é gratificante.

Versão B

1. Quem mais critica é conivente, por vezes, com a mediocridade.

Divisão:
1ªoração
Quem mais critica.à Oração subordinada substantiva relativa (sem antecedente)
2ªoração
É conivente com a mediocridade.àOração subordinante

A conjunção QUEM está a substituir um grupo nominal, implícito.

A 1ª oração pode ser substituída por um GN sem interferir com a gramaticalidade da frase:

A Ana é conivente, por vezes, com a mediocridade.

2. O Zé veio de Paris; a Ana, de Berlim.

Divisão:
1ªoração:
O Zé veio de Paris.àOração coordenada assindética
2ªoração:
A Ana [veio] de Berlim.àOração coordenada copulativa assindética

Se dividirmos as orações com uma conjunção copulativa a frase continua gramatical, e só conseguiremos fazê-lo de forma correta com conjunções ou locuções copulativas ou aditivas, por exemplo:

Ex: O Zé veio de Paris e a Ana de Berlim.

A conjunção usada no 1º exemplo é copulativa ou aditiva pois adiciona-se a uma outra da qual não depende nem faz depender.

Se a substituirmos por uma conjunção disjuntiva por exemplo, a oração fica agramatical:

*Ou o Zé veio de Paris ou a Ana de Berlim.

É assindética pois a conjunção não está presente.

3. O Zé não só não tem seis anos como também não tem muita mobilidade.

Divisão:
1ªoração:
O Zé não tem seis anos.àOração coordenada.
2ªoração:
como também não tem mobilidade.àOração coordenada copulativa sindética

Se substituirmos a locução “não só … com também” por outra, de forma a que a frase continue gramatical, só conseguiremos fazê-lo de forma correta com conjunções ou locuções copulativas ou aditivas, por exemplo:

O Zé nem tem seis anos nem tem muita mobilidade.

Se substituirmos por uma conjunção disjuntiva, por exemplo, a oração fica agramatical:

*Ou o Zé tem seis anos ou tem muita mobilidade.

É sindética pois a conjunção está presente.

4. As hipóteses que desprezaste não são menos importantes.

Neste caso o pronome “que” está a introduzir uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva; trata se, assim, dum pronome relativo, pois, dividindo a frase complexa em duas simples, obtemos:

Divisão:
1ªoração:
As hipóteses não são menos importantes.àOração subordinante
2ªoração:
Desprezaste as hipóteses

que desprezaste à Oração subordinada adjetiva relativa restritiva

A 2ª oração pode ser substituída pelo pronome relativo AS QUAIS.

O pronome está a restringir a referência de as hipóteses.

5. Encarrega-te de tomar conta das crianças.

Divisão:

1ªoração:
Encarrega-te.à Oração subordinante

2ªoração:
de tomar conta das crianças.àOração subordinada completiva não finita (com a função de complemento nominal).

Suprimindo esta oração (este constituinte), a frase, fora de contexto, fica gramatical:

*A tarefa é gratificante.

III (Inês Chim)

«Se Vieira procura, muitas vezes, conduzir a opinião pública, transformando o púlpito em tribuna política, o facto nada tem de excecional: no século XVII, o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais, à televisão, enquanto instrumentos nas mãos dos governantes.»
                                  Jacinto do Prado Coelho, «Oratória», in Dicionário de Literatura, Liv. Figueirinhas

No Sermão de Santo António aos Peixes, o orador privilegia, de facto, a vertente de combate de ideias, que se inscrevem numa grande variedade de domínios, que acabarão por refletir o pensamento de grande homem do mundo que foi o Padre António Vieira.

No capítulo I, o exórdio, o Padre António Vieira começa por utilizar um conceito predicável (“Vos estis sal terrae”: “Vós sois o sal da terra”) que, alicerçado na autoridade de S. Mateus, nos permitirá concluir que Vieira defende que os homens não querem receber a verdadeira doutrina (“ não se deixam salgar”). Para reforçar esta atitude dos homens e os seus defeitos, Vieira recorre à figura da antítese entre peixes e homens ao longo dos capítulos II e III. Deve fazer-se notar, ainda, a referência ao Santo António, que, em muitos casos por analogia com os peixes, é o exemplo a ser seguido pelo auditório.

No capítulo II, inicia-se a construção de uma estrutura alegórica e a Divisão do sermão: primeiro, serão pregados os louvores dos peixes e, seguidamente, os seus defeitos. Ainda neste capítulo, dá-se a Confirmação, expondo-se as qualidades gerais dos peixes. Temos então as divinas – obediência, ordem, quietação e atenção (“[…] aquela obediência […] e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus […]”) – e as naturais – não se deixam domesticar pelo homem, ao contrário de outros animais (“[…] Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam […]”). Ocorre, então, a antítese entre peixes e homens, em que os peixes assumem um valor positivo.

No terceiro capítulo, o Padre António Vieira evoca as qualidades particulares de quatro peixes: o Peixe de Tobias, cujo fel cura a cegueira do pai e cujo coração afasta o demónio da casa (sentido literal) – também Santo António, com o fel, cura a cegueira dos homens e utiliza o coração para afugentar o mal humano (sentido figurado) –; a Rémora, que se pega ao leme da nau e a amarra (sentido literal) – também a língua de Santo António domou a fúria das paixões humanas: Soberba, Vingança, Cobiça e Sensualidade (sentido figurado) –; o Torpedo, que faz tremer o braço do pescador, impedindo-o de pescar (sentido literal) – Santo António fez tremer vinte e dois pescadores que ouviram a suas palavras e se converteram (sentido figurado); e o Quatro-olhos, que se defende dos peixes e das aves (sentido literal). Este é, para além disso, o peixe que ensinou o pregador a olhar para o Céu (para cima) e para o Inferno (para baixo).

No capítulo IV, é iniciada a repreensão aos peixes com os seus defeitos gerais: comem-se uns aos outros, mesmo sendo do mesmo elemento, da mesma pátria, da mesma cidade (“[…]da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! […]”); e são ignorantes e cegos ao ponto de se deixarem explorar. Neste capítulo os peixes assumem o valor negativo antes pertencente apenas aos homens (“[…] Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós […]”), pelo que o recurso estruturante é a analogia e já não a antítese.

De seguida, inicia-se a repreensão aos peixes relacionada com os seus defeitos particulares e Vieira refere-se a outros quatro peixes: os roncadores, que têm como defeitos a arrogância e o orgulho (“[…] É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?![…}”) , traços que se reatualizam, ao nível do homem, com Pedro, Golias, Caifás e Pilatos; os pegadores, devido ao facto de serem parasitas (“[…] sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas tal sorte se lhes pagam aos costados, que jamais os desferram […]”), características que se reatualizam em toda a família da corte de Herodes e em Adão e Eva; os voadores, que são presunçosos, ambiciosos e caprichosos (“[…] matai-vos a vossa presunção e o vosso capricho […] Grande ambição é que […] queira outro elemento mais largo […]”), aspetos que se reatualizam em Simão mago; e o polvo devido à sua hipocrisia e traição (“ […] o dito Polvo é o maior traidor do mar […]”), ultrapassando Judas enquanto símbolo.

Por fim, no capítulo VI, dá-se a peroração em que Vieira louva Deus como reforço da crítica e afirma que o sermão não irá acabar em Graça e Glória porque o auditório – homens ao nível da comunicação, entenda-se – não é detentor de tais qualidades.

Em síntese, podemos concluir que o Sermão de Santo António aos Peixes tem, de facto, uma vertente de combate de ideias pela crítica que é feita aos homens e aos seus comportamentos. Para a efetivação dessa mesma crítica, o orador recorre à alegoria e a analogias ao longo de todo o sermão. Os signos que se produzem no texto configuram-se com um significado coerente ao nível da comunicação, que é dirigida aos interlocutores habilitados a descodificar a denúncia e os objetivos edificantes que serviram de exemplo para os homens, que “se não deixam salgar”. O Padre António Vieira tem, então, como fim da pregação do sermão a mudança de comportamentos, podendo, de facto, afirmar-se que o seu discurso, ultrapassando a simples evangelização no sentido mais religioso, privilegia a vertente de combate de ideias.

Inês Pinto Basto, Rafael Oliveira e Inês Chim,

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Enunciado do Teste Formativo de Português (11º B) - Novembro 2012




Lê atentamente o seguinte excerto do Sermão de S. António aos Peixes:
Nesta viagem, de fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equacional, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.
Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador para as conquistas que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhe matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes desenganados da experiência despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.
Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manjares naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia campanha a atá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão e morrem com ele os pegadores.
Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o evangelista, apareceu o anjo a José no Egito, e disse que já se podia tornar para a pátria porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri. […] Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António.
Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est.[1]
 
Documentando as tuas afirmações com passagens do texto e construindo frases bem estruturadas, responde ao seguinte questionário:
1. Localiza a passagem transcrita na estrutura externa e na estrutura interna do Sermão.
2. Analisa a alegoria dos pegadores considerando os defeitos que apresentam e a sua simbologia.
3. Identifica e classifica dois tipos de argumentos utilizados pelo orador.
4. Dá um exemplo de uma analogia que se realize no texto, apresentando o seu valor expressivo. Justifica as tuas afirmações. 

II 

Divide e, justificando as tuas afirmações, classifica as orações dos seguintes períodos:
1. O Zé nasceu em 15 de agosto de 1996 e entrou na escola aos seis anos.
2. Desprezaste hipóteses que não são menos importantes.
3. Quem mais critica pactua, por vezes, com a mediocridade.
4. O Zé foi para Paris; a Ana, para Berlim.
5. A tarefa de tomar conta das crianças é gratificante. 

III 

«Se Vieira procura, muitas vezes, conduzir a opinião pública, transformando o púlpito em tribuna política, o facto nada tem de excecional: no século XVII, o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais, à televisão, enquanto instrumentos nas mãos dos governantes.»
                                      Jacinto do Prado Coelho, «Oratória», in Dicionário de Literatura, Liv. Figueirinhas 

Num texto expositivo argumentativo de 250 palavras, mostra que, no Sermão de S. António aos Peixes, o orador privilegia a vertente de combate de ideias.


[1] «Para mim, porém, é bom aderir a Deus.». Salmo 72,2.

Enunciado do Teste Formativo de Português (11º I) - Novembro 2012

                                                                                            Prof. João Morais

I

Lê atentamente o seguinte excerto do Sermão de S. António aos Peixes:

[…] Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, preversisque cupiditatibus facit sunt veluti piscis invicem se devorantes: Os homens com suas más e perversas cobiças vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que deveis olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer.

Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o Médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Documentando as tuas afirmações com passagens do texto e construindo frases bem estruturadas, responde ao seguinte questionário:

1. Localiza a passagem transcrita na estrutura externa e na estrutura interna do Sermão.

2. «[…] ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra».

Tendo em conta o seu efeito expressivo, analisa a figura de estilo que, ao nível fónico, se realiza nesta passagem.
3. Identifica e classifica dois tipos de argumentos utilizados pelo orador.

4. Dá um exemplo de uma analogia que se realize no texto, apresentando o seu valor expressivo. Justifica as tuas afirmações.

II

Divide e, justificando as tuas afirmações, classifica as orações dos seguintes períodos:

1. O Zé exortou os presentes para se implicarem mais nos problemas sociais.
2. Evocaste problemas que teremos de resolver.
3. Quem mais adivinha mais erra.
4. O Zé partiu para Roma; a Ana, para Barcelona.
5. A tarefa de olhar pelas crianças é gratificante.

III

«Se Vieira procura, muitas vezes, conduzir a opinião pública, transformando o púlpito em tribuna política, o facto nada tem de excecional: no século XVII, o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais, à televisão, enquanto instrumentos nas mãos dos governantes.»
                                    Jacinto do Prado Coelho, «Oratória», in Dicionário de Literatura, Liv. Figueirinhas

Num texto expositivo argumentativo de 250 palavras, mostra que, no Sermão de S. António aos Peixes, o orador privilegia a vertente de combate de ideias.

O Sermão de S. António aos Peixes: um caso de literatura de combate


No
No Sermão de Santo António aos Peixes, o orador privilegia, de facto, a vertente de combate de ideias, que se inscrevem numa grande variedade de domínios, que acabarão por refletir o pensamento de grande homem do mundo que foi o Padre António Vieira.

No capítulo I, o exórdio, o Padre António Vieira começa por utilizar um conceito predicável (“Vos estis sal terrae”: “Vós sois o sal da terra”) que, alicerçado na autoridade de S. Mateus, nos permitirá concluir que Vieira defende que os homens não querem receber a verdadeira doutrina (“ não se deixam salgar”). Para reforçar esta atitude dos homens e os seus defeitos, Vieira recorre à figura da antítese entre peixes e homens ao longo dos capítulos II e III. Deve fazer-se notar, ainda, a referência ao Santo António, que, em muitos casos por analogia com os peixes, é o exemplo a ser seguido pelo auditório.

No capítulo II, inicia-se a construção de uma estrutura alegórica e a Divisão do sermão: primeiro, serão pregados os louvores dos peixes e, seguidamente, os seus defeitos. Ainda neste capítulo, dá-se a Confirmação, expondo-se as qualidades gerais dos peixes. Temos então as divinas – obediência, ordem, quietação e atenção (“[…] aquela obediência […] e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus […]”) – e as naturais – não se deixam domesticar pelo homem, ao contrário de outros animais (“[…] Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam […]”). Ocorre, então, a antítese entre peixes e homens, em que os peixes assumem um valor positivo.

No terceiro capítulo, o Padre António Vieira evoca as qualidades particulares de quatro peixes: o Peixe de Tobias, cujo fel cura a cegueira do pai e cujo coração afasta o demónio da casa (sentido literal) – também Santo António, com o fel, cura a cegueira dos homens e utiliza o coração para afugentar o mal humano (sentido figurado) –; a Rémora, que se pega ao leme da nau e a amarra (sentido literal) – também a língua de Santo António domou a fúria das paixões humanas: Soberba, Vingança, Cobiça e Sensualidade (sentido figurado) –; o Torpedo, que faz tremer o braço do pescador, impedindo-o de pescar (sentido literal) – Santo António fez tremer vinte e dois pescadores que ouviram a suas palavras e se converteram (sentido figurado); e o Quatro-olhos, que se defende dos peixes e das aves (sentido literal). Este é, para além disso, o peixe que ensinou o pregador a olhar para o Céu (para cima) e para o Inferno (para baixo).

No capítulo IV, é iniciada a repreensão aos peixes com os seus defeitos gerais: comem-se uns aos outros, mesmo sendo do mesmo elemento, da mesma pátria, da mesma cidade (“[…]da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! […]”); e são ignorantes e cegos ao ponto de se deixarem explorar. Neste capítulo os peixes assumem o valor negativo antes pertencente apenas aos homens (“[…] Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós […]”), pelo que o recurso estruturante é a analogia e já não a antítese.

De seguida, inicia-se a repreensão aos peixes relacionada com os seus defeitos particulares e Vieira refere-se a outros quatro peixes: os roncadores, que têm como defeitos a arrogância e o orgulho (“[…] É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?![…}”) , traços que se reatualizam, ao nível do homem, com Pedro, Golias, Caifás e Pilatos; os pegadores, devido ao facto de serem parasitas (“[…] sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas tal sorte se lhes pagam aos costados, que jamais os desferram […]”), características que se reatualizam em toda a família da corte de Herodes e em Adão e Eva; os voadores, que são presunçosos, ambiciosos e caprichosos (“[…] matai-vos a vossa presunção e o vosso capricho […] Grande ambição é que […] queira outro elemento mais largo […]”), aspetos que se reatualizam em Simão mago; e o polvo devido à sua hipocrisia e traição (“ […] o dito Polvo é o maior traidor do mar […]”), ultrapassando Judas enquanto símbolo.

Por fim, no capítulo VI, dá-se a peroração em que Vieira louva Deus como reforço da crítica e afirma que o sermão não irá acabar em Graça e Glória porque o auditório – homens ao nível da comunicação, entenda-se – não é detentor de tais qualidades.

Em síntese, podemos concluir que o Sermão de Santo António aos Peixes tem, de facto, uma vertente de combate de ideias pela crítica que é feita aos homens e aos seus comportamentos. Para a efetivação dessa mesma crítica, o orador recorre à alegoria e a analogias ao longo de todo o sermão. Os signos que se produzem no texto configuram-se com um significado coerente ao nível da comunicação, que é dirigida aos interlocutores habilitados a descodificar a denúncia e os objetivos edificantes que serviram de exemplo para os homens, que “se não deixam salgar”. O Padre António Vieira tem, então, como fim da pregação do sermão a mudança de comportamentos, podendo, de facto, afirmar-se que o seu discurso, ultrapassando a simples evangelização no sentido mais religioso, privilegia a vertente de combate de ideias.

Prof. João Morais

segunda-feira, 28 de maio de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Em torno de José Gomes Ferreira...

André Menezes, 10º F, 2011/12
Prof. João Morais 

«A minha poesia é talvez esta luta contra paredes, muros e pedras – na tentativa de atravessá-las, em busca de um universo perdido.»
                                                                            José Gomes Ferreira

O confronto entre a aceitação e a recusa da realidade existe, e cada um dos posicionamentos possíveis será função da nossa estratégia de acomodação a essa mesma realidade. Em primeiro lugar, a recusa da mesma realidade ocorre porque nem tudo é como aparenta ser e podemos encontrar beleza em tudo, quando visto com o olhar que escolhemos. Assim, por vezes, a realidade imediata é ignorada de modo a vermos e compreendermos mais além.
Isto acontece na arte. Em diversos movimentos das artes plásticas, os objetos não são representados na sua forma ou disposição reais, como no Cubismo, em que cada objeto é decomposto em vários planos, não havendo, da parte do artista, nenhum compromisso de fidelidade com a realidade, em particular, com a representação do espaço e do tempo. [A este título, atentemos igualmente no Surrealismo, que dá grande importância ao irreal e ao inconsciente, libertando-se, desse modo, das exigências da racionalidade. Também são muitas vezes utilizados elementos do irreal na literatura e no cinema, onde, por vezes, são criados mundos e criaturas de modo a enriquecer-se a experiência do público, como observável em diversos livros e filmes de fantasia ou de ficção científica.] [em alternativa ao período anterior]
[Também na filosofia e na ciência é necessário, por vezes, contornar a realidade imediata de modo a chegar a certas conclusões. Pode ser necessário ignorar uma teoria instituída, tida como verdadeira, para chegar a novas conclusões, como pudemos observar em diversos momentos da História: no séc. XVI, Copérnico elaborou a teoria heliocêntrica, opondo-se ao geocentrismo, que era aceite na altura; no séc. XIX, Charles Darwin levou a comunidade científica a aceitar a Teoria da Evolução, em oposição ao Criacionismo.] [em alternativa ao parágrafo anterior]
Mas, se acreditamos que a recusa da realidade pode ser fértil no domínio da arte e do progresso científico e tecnológico, é também verdade que a nossa condição humana, que passa pela aceitação dos mais variados acidentes, como a doença, a morte, se orienta pela aceitação do que ultrapassa a nossa vontade e a nossa capacidade de atuar sobre a realidade.
Quem poderá alienar a inevitabilidade da morte, com os efeitos de grande sofrimento, sobretudo quando ela nos priva dos seres que nos são mais queridos?!
Ao longo da vida, confrontamo-nos com um grande esforço de aceitação e, simultaneamente, de acomodação à hostilidade da vida. A doença e a fome são realidades incapacitantes que, existindo de facto e determinando a nossa revolta, nos devem fazer olhar para a vida com uma grande vontade de marcarmos a nossa presença e de darmos o nosso contributo, o que nos leva a acreditar que, mesmo em contextos de aceitação, não nos podemos desligar da combatividade essencial para a nossa transformação do mundo – pela recusa do status quo!
Podemos, assim, concluir que este confronto é necessário para a expansão dos horizontes do conhecimento e da nossa perceção do que nos rodeia. A nossa avaliação da realidade do mundo e do Homem condicionará os comportamentos que se nos configurem mais pertinentes adequados.

Biografia Ilustrada de Fernão Mendes Pinto

Inês Chim, 10º I, 2011/12
Prof. João Morais






segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Biografia de António Lobo Antunes

Trabalho realizado por Érica Fernandes, nº12; Inês Chim, nº14; João Janeiro, nº17; Madalena Janeiro, nº19 e Márcia Furtado, nº20, 10º I, 2011/12
Prof. João Morais
 





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
Edição: José Fernandes Rodríguez

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012