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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Álvaro de Campos e Walt Whitman

     Trabalho realizado por Janete Serra, 12º B, 2010/11
                                             Prof. João Morais
                                                                               
            «[...] Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos
             Mas o tour de force malogrou-se: 
             depois de 1916, Campos virá a ser poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.

Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, num crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:»
                                 Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, 6ª ed., Lisboa, Verbo, 1980.
  
     Na fase futurista de Álvaro de Campos podem-se encontrar semelhanças e algumas diferenças relativamente aos poemas de Walt Whitman, em Canto de Mim Mesmo.
As semelhanças encontram-se ao nível de alguns temas, que são abordados por ambos os poetas, e ao nível da estrutura dos poemas, enquanto as diferenças estão principalmente relacionadas com a tendência de Campos para o pessimismo.
As semelhanças prendem-se, por um lado, com aspectos como as sensações, o corpo, as máquinas e a fraternidade ou igualdade para com todos. Por outro lado, além dos temas, ambos os poetas escrevem os seus poemas com uma estrutura formal irregular e livre.
Whitman vê tudo e todos da mesma maneira, tendo tudo e todos o mesmo valor, o que mostra a ideia da fraternidade e da igualdade:
“E que todos os homens alguma vez nascidos são também meus irmãos, e / as mulheres minhas irmãs e amantes”, p. 17; “Sou o camarada e o companheiro das pessoas [...]”, p.21; “[...] (amo-o, ainda que não o conheça)”, p.37; “Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas”, p. 75; ”Infinito e de todas as espécies sou, e igual a elas sou”, p.79; “ [...] nem um único será omitido.”, p. 121.
Também se pode encontrar esta ideia na poética de Campos, nomeadamente no poema ;:
“Fraternidade com todas as dinâmicas!”; “Amo-vos a todos, a tudo”; “Como eu vos amo de todas as maneiras”; “[...] eu acho isto belo e amo-o!”, “Como eu vos amo[...] nem bons nem maus”.
Para o heterónimo pessoano – numa primeira instância – todas as coisas também são boas e positivas, mesmo o que não é assim considerado pelo senso comum:
“Banalidade interessante[...]”; “A maravilhosa beleza das corrupções políticas / Deliciosos escândalos [...]”; “[...] orçamento é tão natural [...]”; “[...] parlamento tão belo [...]”; “Maravilhosamente gente humana [...]”; “Fauna maravilhosa [...]”.
Whitman utiliza as sensações enquanto tema, mas também como motivo para a escrita poética:
“A vista, o ouvido, o tacto são milagres [...]”; “O odor destas axilas [...]”, na pág. 61; “O meu discurso é gémeo da minha visão [...]”, na pág.65; “[...] olhando-te simplesmente!”, na pág.67; “Mexo, aperto, sinto com os meus dedos [...]”, na pág. 71; “As dores [...] nas pernas e no pescoço [...] Tudo isso sinto ou sou.”, na pág. 91; “Faço parte, vejo e oiço tudo.”, p.95.
Nesta fase futurista sensacionista de Campos, o poeta acolhe todas as sensações:
“[...] de tudo com que eu sinto!”; “[...] vos querer com [...] expressão de todas as minhas sensações”; “ A todos os perfumes [...]”; “O cheiro fresco a tinta [...]”; “Como eu vos amo [...] Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto / E com o tacto [...]” in Ode Triunfal;.
Campos celebra o triunfo da máquina, exprimindo-se de uma forma lúbrica, como se tivesse uma atracção sexual pelas máquinas. Assim, podemos encontrar no poema Ode Triunfal; os campos lexicais de corpo e de máquina:
“lábios”, “corpo”, “costas”, “tronco”; “fábrica”, “rodas”, “engrenagens”, “máquinas”, etc.
O poeta fala das coisas de maneira tão espontânea e sedutora quanto perversa para o senso comum:
“[...] penetrar-me fisicamente de tudo isto”; “[...] (o que palpar-vos representa para mim!)”, “Amo-vos carnivoramente / Pervertidamente [...]”; “Ó fábricas, ó laboratórios, [...] Possuo-vos como a uma mulher bela”; “Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!”; “[...] putas [...]”; Masturbam homens [...]”.
Whitman também manifesta um desejo lúbrico em relação às coisas:
“Despe-te [...]”, p. 21; “[...] centenas de afectos”, p. 33; “[...] lábios entreabertos, / A prostituta [...]”, p. 39; “[...] suaves genitais”, p. 63; “[...] meu peito nu”, p. 71; “[...] às minhas carícias”, p.79; “[...] vindo a mim nus [...]”, p. 127.
Ele escreve também sobre as máquinas:
“O maquinista [...]” e “[...] na / fábrica ou na oficina”, p. 77.
No que tem a ver com a estrutura externa, os poemas de ambos não têm isometrismo, nem isomorfismo, nem rima. Os versos são brancos e longos. Estas características estruturais representam a liberdade que ambos os poetas reclamam e que está relacionada com a vida moderna e, assim, com a estética futurista.
Quanto às diferenças entre os poetas – não esquecendo que nos limitámos ao confronto do poeta norte-americano com a segunda fase de Campos, ou com a face futurista sensacionista se quisermos –, podemos referir o facto de Campos ser demasiado excessivo na expressão: usa, exageradamente, onomatopeias, interjeições, exclamações. Por oposição, Whitman é calmo e moderado a escrever.
Mas Whitman é constantemente feliz:
“[...] estou exauste mas não infeliz”, p. 93; “Não é o caos nem a morte... [...] é a Felicidade”, p.141.
Já Campos, mesmo com a euforia e a exaltação da vida moderna, mostra sinais de pessimismo e melancolia.
“(Na nora do quintal da minha casa / O burro anda à roda, anda à roda, / E o mistério do mundo é do tamanho disto. / Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. / A luz do sol abafa o silêncio das esferas / E havemos todos de morrer, / Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, / Pinheirais onde a minha infância era outra coisa / Do que eu sou hoje...)” .in «Ode Triunfal»
Este excerto reflecte a nostalgia da infância, o mistério do mundo e a fatalidade da morte, que são temas disfóricos, melancólicos, utilizados nos poemas da fase – da face – intimista de Campos. Ou seja, já nos poemas eufóricos, Campos mostra um esgotamento das sensações e uma abulia da alma, como oposição a Whitman.
E                 Em suma, apesar de Whitman ser um exemplo para Campos. 
                   Este não consegue nunca ser completamente feliz e deixar de pensar, mesmo depois da 
                   exaltação da vida moderna. 

                     Editado e organizado por José Fernandes Rodriguez

A Divergência entre Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos

  
     Trabalho realizado por Joana Menezes, Nº17, 12º A, 2010/11
                                             Prof. João Morais 
                 
«No íntimo, a divergência [entre Pessoa ortónimo e Campos] é mais temperamental, e daí estilística, do que de opiniões e preocupações.»
Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa

Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos têm aspectos de unidade, como as opiniões e preocupações, e aspectos de diversidade, como a estilística, que é influenciada pelos diferentes temperamentos.
Atendendo à questão do enigma do ser, presente no poema «Viajar! Perder Países!», Pessoa ortónimo faz uma viagem permanente na procura e na descoberta do eu, que é sempre outro e não tem amarras a nada, nem a si mesmo.
Este aspecto está também presente na poética de Álvaro de Campos, ainda que com uma configuração futurista, no poema «Ode Triunfal»: «Ser completo como uma máquina!». Esta passagem remete para a procura do eu absoluto através do triunfo da civilização contemporânea, que se vai constituir num sentimento de realização para o sujeito lírico: a máquina é o que há de mais perfeito e mais completo, desejando ele configurar-se com esses mecanismos em fúria. O sujeito poético olha, assim, para si mesmo e não para a sua realidade ontológica como o ortónimo e o próprio Campos, que se apresentará mais tarde com uma face mais intimista.
Ainda um aspecto que aproxima Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos é a dor de pensar.

Para Pessoa os seus pensamentos são um obstáculo para a felicidade, pelo que ele deseja realizar o paradoxo de ter uma consciência inconsciente, podendo ser ele mesmo e sentir as suas emoções e sensações. No poema «Ela canta, pobre ceifeira», Pessoa anseia possuir a inconsciência da pobre ceifeira («Entrai por mim dentro»), pois ela, como não sabe verbalizar a realidade, não tem consciência dela própria nem sabe dar nome aos seus estados de alma, pelo que se julga talvez feliz («De alegre e anónima viuvez»).
Paralelamente ao ortónimo, Campos, por vezes, desvaloriza o pensamento em favor das emoções, o que está patente também no poema «Ode Triunfal», onde se reactualiza um excesso de sensações, um registo de exaltação emocional. Enfatiza os seus versos com onomatopeias («r-r-r-r-r-r»), sensações concomitantemente gustativas e auditivas («Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos»), personificações («Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!»), apóstrofes («Ó rodas, ó engrenagens»), exclamações («Forte espasmo retido dos maquinismos em fuga»), e outros versos que remetem para o campo lexical do excesso e da força. Este poema vai, deste modo, ilustrar a face futurista e sensacionista de Campos.
Outro poema onde Álvaro de Campos explora este mesmo tema é «Lisbon revisited (1923)». O poeta evoca a infância como momento de felicidade, que antecede a dor de pensar e a consciência. Campos irá, deste modo, rever a Lisboa da sua infância sem a poder reencontrar com a mesma configuração de outrora. A cidade está perdida para sempre, não sendo ele capaz de a recuperar – e de se recuperar a ele próprio. É como se nenhuma memória lhe pudesse devolver o passado («Ó céu azul – o mesmo da minha infância - | Eterna verdade vazia e perfeita!»). Como em «Ela canta, pobre ceifeira», do ortónimo, a revisita de Campos a Lisboa irá também ilustrar a sua face pessimista: o poeta está cansado e rejeita as ciências e a civilização moderna, reclamando o direito à solidão e à indiferença («Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo| E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!»).
No poema «Dactilografia», de Campos, está presente a oposição entre a infância, enquanto tempo eufórico, e a idade adulta, enquanto tempo disfórico, antinomia também recorrente no ortónimo.
Tanto no poema «O Menino da sua mãe», de Pessoa ortónimo, como em «Dactilografia», a infância é o passado irremediavelmente perdido: havia a felicidade sem eles o saberem e, por isso, ainda não tinham iniciado a procura de si mesmos, que posteriormente os levará à fragmentação e ao tédio.
Nestes poemas também há a oposição entre o eu-outrora e o eu-agora, sendo o passado representado por uma felicidade inconsciente e um tempo de alegria, e o presente, pela experiência do tédio, da nostalgia, da inquietação e pelo desconhecimento de si mesmo e do futuro.
Em «Dactilografia» podemos observar uma acumulação de palavras que se relacionam com a escrita – o que é bastante recorrente em toda a poética pessoana. Constrói-se, assim, um campo lexical muito produtivo em Fernando Pessoa, quer no ortónimo, quer nos heterónimos. Palavras como: «Traço», «plano» e «projecto» pressupõem uma elaboração mental, o exercício do pensar, e concorrem para a construção de uma dualidade: por um lado, o plano interior, que está no presente e na primeira estrofe, e que valoriza o pensar, na medida em que o emissor recorre à memória para se relembrar da infância e da felicidade e se ausentar da realidade e do tédio; e, por outro lado, o plano exterior, que irá desvalorizar as sensações auditivas, nomeadamente o «tic-tac» das máquinas de escrever, que o distrairá e o conduzirá à realidade e ao presente.
Esta dualidade irá reforçar o contraste entre o interior (eu) e o exterior (máquinas).
Em «O Menino da sua mãe» está em causa um herói que é uma vítima trágica do destino («malhas»), pois dá-se a morte da sua infância quando este entra na idade adulta – e na guerra – e, em consequência disso, a sua morte.
Para Pessoa ortónimo e Campos, a idade adulta tem o mesmo significado: a infelicidade.
É no poema «Quando as crianças brincam» que o ortónimo evidencia a sua melancolia e a sua nostalgia de não saber quem é e a incapacidade de não conseguir sentir sem pensar, tal como as crianças, que lhe relembram a infância e o sonho.
Para Campos a idade adulta é a realidade, tempo e lugar nos quais a sua alma por acaso se fragmentou: «Sorriem tolerantes à criada involuntária» in «Apontamento». Neste poema o eu será comparado a um vaso vazio, que se parte e se fragmenta em níveis muito elevados («Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso»), sendo, por isso, impossível alcançar a felicidade e o seu autoconhecimento.
Relativamente às divergências entre a poética de Pessoa ortónimo e a de Álvaro de Campos atentemos nos seus estilos.
O do ortónimo é caracterizado pela regularidade, aos níveis do isomorfismo, do isometrismo e do esquema rimático. Contrariamente ao ortónimo, Campos opta pelo verso livre e longo, que enfatiza a poética do excesso, e não respeita os códigos instituídos, fazendo com que Campos reclame a liberdade levada ao extremo, através de repetições («Outrora [],|Outrora [] |Outrora.» in «Dactilografia»), anáforas («Que [] |Que [] |Que [in «Dactilografia»), exclamações («Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!» in «Ode Triunfal»), interjeições («Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime» in «Ode Triunfal»), comparações («A minha alma partiu-se como um vaso vazio» in «Apontamento»), metáforas inesperadas («A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?| Um caco.» in «Apontamento»), paradoxos («Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!» in «Lisbon revisited (1923)») e onomatopeias («r-r-r-r-r-r-r eterno!» in «Ode Triunfal»).
Em suma, Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos irão partilhar opiniões e preocupações relativas à fragmentação, à dor de pensar, à infância perdida e à sua nostalgia.
Todavia como já foi dito, também se institui um amplo espectro de diversidade entre estes dois poetas, que é evidenciado pela estilística dos poemas como consequência dos seus distintos temperamentos.
A meu ver, o Modernismo veio impulsionar este desdobramento da personalidade em Fernando Pessoa, que o conduz à fragmentação e à criação de múltiplos seres, e que, consequentemente, conduz à contínua procura do seu autoconhecimento. E este processo não terá fim pelo que continuarão a aparecer várias vozes a fazer ecoar esse drama em pessoa ou essa polifonia mais ou menos (des)concertada.

Editado e organizado por José Fernandes Rodriguez

sábado, 11 de dezembro de 2010

“Apontamentos para uma Estética Não Aristotélica”, de Álvaro de Campos - Síntese Documentada


Trabalho realizado por João Filipe Afonso, Nº13, 12º B, 2010/11
Prof. João Morais

SÍNTESE DOCUMENTADA DO TEXTO “APONTAMENTOS PARA UMA ESTÉTICA NÃO ARISTOTÉLICA”, de ÁLVARO DE CAMPOS (publicado in Athena, nº 3 e 4, Lisboa Dez.-Jan. 1924-25.)

A estética aristotélica defende que o objectivo final da arte é a beleza, podendo, no entanto, existirem diferentes caminhos para se atingir esse objectivo.
Álvaro de Campos afirma que a estética é uma arte, que, para assim ser considerada, terá de se basear não numa ideia de beleza, mas sim numa ideia de força e energia, que surgem em consequência da vida, pois é produzida pelos seres vivos através da intensidade e do equilíbrio entre duas forças de interacção e integração. Estas dão vida à arte através de uma acção e de uma reacção baseadas na sensibilidade, isto é, a arte é realizada por se sentir e para se sentir.
“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados”. vv. 1-2 in Passagem das horas.

“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo”. vv. 41-42 in Passagem das horas.
Para Álvaro de Campos a estética aristotélica defende que, tal como a ciência, a arte parte do particular para o geral, quando na realidade o que acontece é que arte e ciência são fenómenos opostos, logo o correcto será a arte partir do geral para o particular e o exterior tornar-se interior, contrariamente à estética aristotélica, que pretende que os artistas generalizem ou humanizem a sua sensibilidade.
“Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos”. v. 4 in Passagem das horas.  

“Passa tudo, todas as cousas num desfile por mim dentro,
E todas a cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim”. v. 69 in Passagem das horas.
Para o autor, a arte é um fenómeno social que, para ser atingida, obriga ao equilíbrio e à coexistência de dois sentimentos que o homem possui e que o fazem assumir uma forma de vida social sã: o espírito gregário, que se traduz na igualdade entre os homens, e o espírito individualista ou separatista, que os afasta. Importa ainda analisar as duas formas que o espírito antigregário ou separativo podem assumir: o isolamento (afastamento dos outros) e o domínio. Se considerarmos o domínio uma forma social contrária ao isolamento, poderemos então concluir que arte implica um esforço para dominar os outros.
“Não me subordino senão por atavismo”. v. 246 in Passagem das horas.

“Sinta na cabeça a velocidade do gira da terra,
e todos os paizes e todas as pessoas giram dentro de mim”. vv. 309-310 in Passagem das horas.

“Sou eu me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha circulo –mim!”. vv. 391-392 in Passagem das horas.

“Eu, a paysagem por detraz d’isto tudo, a paz citadina[…]
Eu, tudo isto, e além d’isso o resto do mundo...”. vv. 35-36 in Passagem das horas.
Os processos a destacar para atingir o domínio são a captação e a subjugação, que se manifestam em diferentes actividades como na política, na religião e na arte. Por exemplo, na política existe a democracia – a política de captação – e a ditadura – a política de subjugação. Na arte, tal como na política, existe a arte que domina captando, característica da estética aristotélica que se baseia na ideia de beleza, na inteligência, mais concretamente na subordinação da sensibilidade à inteligência para que aquela seja humana e universal, agradável e acessível para poder captar os outros, na unidade artificial e visível como a de uma máquina:
“Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lampada que arde” v. 339. in Ode Triunfal.
            Por outro lado, a arte em que o autor acredita e que defende é aquela que domina subjugando, baseando-se na ideia de força, na sensibilidade, que é particular e pessoal porque, se assim o não fosse, em vez de dominarmos, seríamos dominados.
            Contrariamente à arte aristotélica, Álvaro de Campos apoia-se na unidade espontânea, natural, sensorial, mas que nunca é visível, subordinando tudo a uma sensibilidade abstracta como a inteligência, forçando os outros, quer queiram quer não, a sentir aquilo que ele sentiu, ou seja, dominando-os pela força inexplicável, tal como o ditador espontâneo subjuga o povo fraco.
”Seja uma flor ou uma ideia abstracta”. v. 9. in A passagem das horas.

”Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti”. v. 103 in Passagem das horas.

”Tenho a fúria de ser raiz”. vv -  280. in A passagem das horas.
”Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,”. v. 314 in Passagem das horas.

”Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques/ […]”. vv. 332-336 in Passagem das horas.
”Assim como não gosto da vida, mas gosto de sentil-a…”. v. 95 in Passagem das horas.

Para Álvaro de Campos existem os artistas aristotélicos falsos e os verdadeiros; e os não aristotélicos verdadeiros, por um lado, e os simuladores, por outro lado: não é a teoria que faz o artista, mas sim o facto de se ter nascido artista.
”O binómio de Newton é tão belo como a Venus de Milo
O que há é pouca gente para dar por isso.” vv. 1-2  in Poema 115 [69 – II.]
A arte dos gregos retrata correctamente a teoria estética não aristotélica da arte baseada na força e na vitalidade, pelo facto de a beleza, a harmonia não serem conceitos provenientes da inteligência, mas disposições íntimas da sensibilidade. Os artistas gregos emitiam sensibilidade sobre tudo o que realizavam, contrariamente ao que acontece com a sensibilidade mais próxima de nós, alterada e adulterada pelas diferentes forças sociais, nomeadamente pelos romanos e franceses, que não permitiram que recebêssemos essa emissão de sensibilidade e emoção estética a não ser através do uso da inteligência.

Para o autor existem ainda mais restrições àquilo que desejamos chamar e considerar arte, pois uma simples ideia intelectual de beleza não habilita o artista a criar beleza: só a sensibilidade a cria e emite, da mesma forma que a mesma simples ideia intelectual de força pode não estar habilitada a criar a força que pretende criar, não passando de uma simulação da arte da força que acaba por não criar nada. Alguns artistas fazem arte não aristotélica falsa, porque não prescindem da arte aristotélica: realizam espontaneamente e exclusivamente má arte aristotélica, dado que a realizam com o recurso à inteligência e não com a sensibilidade.
”Estou cansado da intilligencia
Pensar faz mal às emoções
Uma grande reacção aparece.” vv.1-3 in Poema 43 [7I – I6].
Para Álvaro de Campos e até à sua actualidade existiram apenas três verdadeiras manifestações de arte não aristotélica: os poemas de Walt Whitman, as do mestre Caeiro e as suas próprias odes – por exemplo a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”.

            “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.” v. 19 in Poema segundo – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “O rebanho é os meus pensamentos,
            E os meus pensamentos são todos sensações.” vv. 2-3 in Poema nono – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “Uma hora para a loucura e a alegria! Ó furiosos! Oh, não me confinem.
            (O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
            Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos rugidores?)” vv 1-3 in Uma hora para a loucura e alegria, de Walt Whitman.

COMENTÁRIO FINAL
Pelo que ficou exposto, a obra de Álvaro de Campos apresenta uma face futurista sensacionista, defendendo uma estética não aristotélica baseada não na beleza, nos meros sentimentos e na inteligência, mas sim numa poesia triunfal, enérgica, carregada de emotividade e baseada na ideia de força individual, que se manifesta na vida subjugando os outros sem procurar captá-los pela razão. O poeta manifesta uma predilecção pela beleza feroz – “A maravilhosa belesa das corrupções políticas,” vv - 73. in Ode Triunfal – que simboliza a força da vida e da civilização industrial da época, contrariando a concepção aristotélica de beleza e realizando assim uma arte vigorosa.
“Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída” vv. 134-135. in Ode Triunfal,
O poeta procura ainda a totalização das sensações, conforme as sente ou pensa, ou seja, como poeta sensacionista, a única realidade são as sensações, expressando-as com uma energia explosiva, procurando sempre sentir a violência e a força dessas sensações:“sentir tudo de todas as maneiras”.

Será uma forma de escamotear a fragilidade ontológica de Fernando Pessoa?
Atentemos, a esse título, uma passagem da “Ode Triunfal”: na voragem e na força voluptuosa da máquina e do movimento emerge a “[…] infância [que] era outra coisa / Do que eu sou hoje…” vv. 189-90.

Registos Bibliográficos:
Os textos foram retirados da edição crítica de Cleonice Berardinelli: 
Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1990.

MEDITAÇÃO DE PERCEVAL de João Morais


Escrito uma noite em Londres, depois de uma récita do PARSIFAL, de Wagner.


MEDITAÇÃO DE PERCEVAL

deram-me um nome e fui ungido de castidade
o instinto guiou-me actos e passos
louco por perder o que não me deixaram escolher
ganhei a redenção
perdi a humanidade

pensar dói
como quem magoa o corpo
neste desencontro inevitável

tenho medo
movo-me na abertura da terra
por entre corpos que deixei traídos
miséria da existência divina

esta lança
que dizem santa
é o preço da renúncia
cisne mãe mulher
morte no feminino

meu filho resgatará o cisne
a romper o ar
no desenho da dor
de não dizer o nome

minha mãe não sofreu
a pena da deserção
anunciada de uma voz
provação de um deus por ser

o beijo de mulher deu-me luz
reclamada de deuses
miséria de uma existência divina
inconclusa
plena de pesar

louco de sedução e espírito
submisso do destino
que rege terra e céu
germe de perda
para sempre

habitar o corpo por dentro
clausura de paredes
sei que só vou habitar este corpo

um pássaro rompe os ares
desenha formas redondas

recolho-me no mar
murmúrio de um desejo incontido
desejo de ouvir o segredo adiado

verei de novo o mar
destino do meu ser
cansado
nos dias esgotados de divindade

                                                                  João Morais 
                                                                  Novembro de 2004