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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Álvaro de Campos e Walt Whitman

     Trabalho realizado por Janete Serra, 12º B, 2010/11
                                             Prof. João Morais
                                                                               
            «[...] Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos
             Mas o tour de force malogrou-se: 
             depois de 1916, Campos virá a ser poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.

Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, num crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:»
                                 Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, 6ª ed., Lisboa, Verbo, 1980.
  
     Na fase futurista de Álvaro de Campos podem-se encontrar semelhanças e algumas diferenças relativamente aos poemas de Walt Whitman, em Canto de Mim Mesmo.
As semelhanças encontram-se ao nível de alguns temas, que são abordados por ambos os poetas, e ao nível da estrutura dos poemas, enquanto as diferenças estão principalmente relacionadas com a tendência de Campos para o pessimismo.
As semelhanças prendem-se, por um lado, com aspectos como as sensações, o corpo, as máquinas e a fraternidade ou igualdade para com todos. Por outro lado, além dos temas, ambos os poetas escrevem os seus poemas com uma estrutura formal irregular e livre.
Whitman vê tudo e todos da mesma maneira, tendo tudo e todos o mesmo valor, o que mostra a ideia da fraternidade e da igualdade:
“E que todos os homens alguma vez nascidos são também meus irmãos, e / as mulheres minhas irmãs e amantes”, p. 17; “Sou o camarada e o companheiro das pessoas [...]”, p.21; “[...] (amo-o, ainda que não o conheça)”, p.37; “Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas”, p. 75; ”Infinito e de todas as espécies sou, e igual a elas sou”, p.79; “ [...] nem um único será omitido.”, p. 121.
Também se pode encontrar esta ideia na poética de Campos, nomeadamente no poema ;:
“Fraternidade com todas as dinâmicas!”; “Amo-vos a todos, a tudo”; “Como eu vos amo de todas as maneiras”; “[...] eu acho isto belo e amo-o!”, “Como eu vos amo[...] nem bons nem maus”.
Para o heterónimo pessoano – numa primeira instância – todas as coisas também são boas e positivas, mesmo o que não é assim considerado pelo senso comum:
“Banalidade interessante[...]”; “A maravilhosa beleza das corrupções políticas / Deliciosos escândalos [...]”; “[...] orçamento é tão natural [...]”; “[...] parlamento tão belo [...]”; “Maravilhosamente gente humana [...]”; “Fauna maravilhosa [...]”.
Whitman utiliza as sensações enquanto tema, mas também como motivo para a escrita poética:
“A vista, o ouvido, o tacto são milagres [...]”; “O odor destas axilas [...]”, na pág. 61; “O meu discurso é gémeo da minha visão [...]”, na pág.65; “[...] olhando-te simplesmente!”, na pág.67; “Mexo, aperto, sinto com os meus dedos [...]”, na pág. 71; “As dores [...] nas pernas e no pescoço [...] Tudo isso sinto ou sou.”, na pág. 91; “Faço parte, vejo e oiço tudo.”, p.95.
Nesta fase futurista sensacionista de Campos, o poeta acolhe todas as sensações:
“[...] de tudo com que eu sinto!”; “[...] vos querer com [...] expressão de todas as minhas sensações”; “ A todos os perfumes [...]”; “O cheiro fresco a tinta [...]”; “Como eu vos amo [...] Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto / E com o tacto [...]” in Ode Triunfal;.
Campos celebra o triunfo da máquina, exprimindo-se de uma forma lúbrica, como se tivesse uma atracção sexual pelas máquinas. Assim, podemos encontrar no poema Ode Triunfal; os campos lexicais de corpo e de máquina:
“lábios”, “corpo”, “costas”, “tronco”; “fábrica”, “rodas”, “engrenagens”, “máquinas”, etc.
O poeta fala das coisas de maneira tão espontânea e sedutora quanto perversa para o senso comum:
“[...] penetrar-me fisicamente de tudo isto”; “[...] (o que palpar-vos representa para mim!)”, “Amo-vos carnivoramente / Pervertidamente [...]”; “Ó fábricas, ó laboratórios, [...] Possuo-vos como a uma mulher bela”; “Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!”; “[...] putas [...]”; Masturbam homens [...]”.
Whitman também manifesta um desejo lúbrico em relação às coisas:
“Despe-te [...]”, p. 21; “[...] centenas de afectos”, p. 33; “[...] lábios entreabertos, / A prostituta [...]”, p. 39; “[...] suaves genitais”, p. 63; “[...] meu peito nu”, p. 71; “[...] às minhas carícias”, p.79; “[...] vindo a mim nus [...]”, p. 127.
Ele escreve também sobre as máquinas:
“O maquinista [...]” e “[...] na / fábrica ou na oficina”, p. 77.
No que tem a ver com a estrutura externa, os poemas de ambos não têm isometrismo, nem isomorfismo, nem rima. Os versos são brancos e longos. Estas características estruturais representam a liberdade que ambos os poetas reclamam e que está relacionada com a vida moderna e, assim, com a estética futurista.
Quanto às diferenças entre os poetas – não esquecendo que nos limitámos ao confronto do poeta norte-americano com a segunda fase de Campos, ou com a face futurista sensacionista se quisermos –, podemos referir o facto de Campos ser demasiado excessivo na expressão: usa, exageradamente, onomatopeias, interjeições, exclamações. Por oposição, Whitman é calmo e moderado a escrever.
Mas Whitman é constantemente feliz:
“[...] estou exauste mas não infeliz”, p. 93; “Não é o caos nem a morte... [...] é a Felicidade”, p.141.
Já Campos, mesmo com a euforia e a exaltação da vida moderna, mostra sinais de pessimismo e melancolia.
“(Na nora do quintal da minha casa / O burro anda à roda, anda à roda, / E o mistério do mundo é do tamanho disto. / Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. / A luz do sol abafa o silêncio das esferas / E havemos todos de morrer, / Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, / Pinheirais onde a minha infância era outra coisa / Do que eu sou hoje...)” .in «Ode Triunfal»
Este excerto reflecte a nostalgia da infância, o mistério do mundo e a fatalidade da morte, que são temas disfóricos, melancólicos, utilizados nos poemas da fase – da face – intimista de Campos. Ou seja, já nos poemas eufóricos, Campos mostra um esgotamento das sensações e uma abulia da alma, como oposição a Whitman.
E                 Em suma, apesar de Whitman ser um exemplo para Campos. 
                   Este não consegue nunca ser completamente feliz e deixar de pensar, mesmo depois da 
                   exaltação da vida moderna. 

                     Editado e organizado por José Fernandes Rodriguez

A Divergência entre Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos

  
     Trabalho realizado por Joana Menezes, Nº17, 12º A, 2010/11
                                             Prof. João Morais 
                 
«No íntimo, a divergência [entre Pessoa ortónimo e Campos] é mais temperamental, e daí estilística, do que de opiniões e preocupações.»
Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa

Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos têm aspectos de unidade, como as opiniões e preocupações, e aspectos de diversidade, como a estilística, que é influenciada pelos diferentes temperamentos.
Atendendo à questão do enigma do ser, presente no poema «Viajar! Perder Países!», Pessoa ortónimo faz uma viagem permanente na procura e na descoberta do eu, que é sempre outro e não tem amarras a nada, nem a si mesmo.
Este aspecto está também presente na poética de Álvaro de Campos, ainda que com uma configuração futurista, no poema «Ode Triunfal»: «Ser completo como uma máquina!». Esta passagem remete para a procura do eu absoluto através do triunfo da civilização contemporânea, que se vai constituir num sentimento de realização para o sujeito lírico: a máquina é o que há de mais perfeito e mais completo, desejando ele configurar-se com esses mecanismos em fúria. O sujeito poético olha, assim, para si mesmo e não para a sua realidade ontológica como o ortónimo e o próprio Campos, que se apresentará mais tarde com uma face mais intimista.
Ainda um aspecto que aproxima Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos é a dor de pensar.

Para Pessoa os seus pensamentos são um obstáculo para a felicidade, pelo que ele deseja realizar o paradoxo de ter uma consciência inconsciente, podendo ser ele mesmo e sentir as suas emoções e sensações. No poema «Ela canta, pobre ceifeira», Pessoa anseia possuir a inconsciência da pobre ceifeira («Entrai por mim dentro»), pois ela, como não sabe verbalizar a realidade, não tem consciência dela própria nem sabe dar nome aos seus estados de alma, pelo que se julga talvez feliz («De alegre e anónima viuvez»).
Paralelamente ao ortónimo, Campos, por vezes, desvaloriza o pensamento em favor das emoções, o que está patente também no poema «Ode Triunfal», onde se reactualiza um excesso de sensações, um registo de exaltação emocional. Enfatiza os seus versos com onomatopeias («r-r-r-r-r-r»), sensações concomitantemente gustativas e auditivas («Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos»), personificações («Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!»), apóstrofes («Ó rodas, ó engrenagens»), exclamações («Forte espasmo retido dos maquinismos em fuga»), e outros versos que remetem para o campo lexical do excesso e da força. Este poema vai, deste modo, ilustrar a face futurista e sensacionista de Campos.
Outro poema onde Álvaro de Campos explora este mesmo tema é «Lisbon revisited (1923)». O poeta evoca a infância como momento de felicidade, que antecede a dor de pensar e a consciência. Campos irá, deste modo, rever a Lisboa da sua infância sem a poder reencontrar com a mesma configuração de outrora. A cidade está perdida para sempre, não sendo ele capaz de a recuperar – e de se recuperar a ele próprio. É como se nenhuma memória lhe pudesse devolver o passado («Ó céu azul – o mesmo da minha infância - | Eterna verdade vazia e perfeita!»). Como em «Ela canta, pobre ceifeira», do ortónimo, a revisita de Campos a Lisboa irá também ilustrar a sua face pessimista: o poeta está cansado e rejeita as ciências e a civilização moderna, reclamando o direito à solidão e à indiferença («Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo| E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!»).
No poema «Dactilografia», de Campos, está presente a oposição entre a infância, enquanto tempo eufórico, e a idade adulta, enquanto tempo disfórico, antinomia também recorrente no ortónimo.
Tanto no poema «O Menino da sua mãe», de Pessoa ortónimo, como em «Dactilografia», a infância é o passado irremediavelmente perdido: havia a felicidade sem eles o saberem e, por isso, ainda não tinham iniciado a procura de si mesmos, que posteriormente os levará à fragmentação e ao tédio.
Nestes poemas também há a oposição entre o eu-outrora e o eu-agora, sendo o passado representado por uma felicidade inconsciente e um tempo de alegria, e o presente, pela experiência do tédio, da nostalgia, da inquietação e pelo desconhecimento de si mesmo e do futuro.
Em «Dactilografia» podemos observar uma acumulação de palavras que se relacionam com a escrita – o que é bastante recorrente em toda a poética pessoana. Constrói-se, assim, um campo lexical muito produtivo em Fernando Pessoa, quer no ortónimo, quer nos heterónimos. Palavras como: «Traço», «plano» e «projecto» pressupõem uma elaboração mental, o exercício do pensar, e concorrem para a construção de uma dualidade: por um lado, o plano interior, que está no presente e na primeira estrofe, e que valoriza o pensar, na medida em que o emissor recorre à memória para se relembrar da infância e da felicidade e se ausentar da realidade e do tédio; e, por outro lado, o plano exterior, que irá desvalorizar as sensações auditivas, nomeadamente o «tic-tac» das máquinas de escrever, que o distrairá e o conduzirá à realidade e ao presente.
Esta dualidade irá reforçar o contraste entre o interior (eu) e o exterior (máquinas).
Em «O Menino da sua mãe» está em causa um herói que é uma vítima trágica do destino («malhas»), pois dá-se a morte da sua infância quando este entra na idade adulta – e na guerra – e, em consequência disso, a sua morte.
Para Pessoa ortónimo e Campos, a idade adulta tem o mesmo significado: a infelicidade.
É no poema «Quando as crianças brincam» que o ortónimo evidencia a sua melancolia e a sua nostalgia de não saber quem é e a incapacidade de não conseguir sentir sem pensar, tal como as crianças, que lhe relembram a infância e o sonho.
Para Campos a idade adulta é a realidade, tempo e lugar nos quais a sua alma por acaso se fragmentou: «Sorriem tolerantes à criada involuntária» in «Apontamento». Neste poema o eu será comparado a um vaso vazio, que se parte e se fragmenta em níveis muito elevados («Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso»), sendo, por isso, impossível alcançar a felicidade e o seu autoconhecimento.
Relativamente às divergências entre a poética de Pessoa ortónimo e a de Álvaro de Campos atentemos nos seus estilos.
O do ortónimo é caracterizado pela regularidade, aos níveis do isomorfismo, do isometrismo e do esquema rimático. Contrariamente ao ortónimo, Campos opta pelo verso livre e longo, que enfatiza a poética do excesso, e não respeita os códigos instituídos, fazendo com que Campos reclame a liberdade levada ao extremo, através de repetições («Outrora [],|Outrora [] |Outrora.» in «Dactilografia»), anáforas («Que [] |Que [] |Que [in «Dactilografia»), exclamações («Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!» in «Ode Triunfal»), interjeições («Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime» in «Ode Triunfal»), comparações («A minha alma partiu-se como um vaso vazio» in «Apontamento»), metáforas inesperadas («A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?| Um caco.» in «Apontamento»), paradoxos («Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!» in «Lisbon revisited (1923)») e onomatopeias («r-r-r-r-r-r-r eterno!» in «Ode Triunfal»).
Em suma, Fernando Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos irão partilhar opiniões e preocupações relativas à fragmentação, à dor de pensar, à infância perdida e à sua nostalgia.
Todavia como já foi dito, também se institui um amplo espectro de diversidade entre estes dois poetas, que é evidenciado pela estilística dos poemas como consequência dos seus distintos temperamentos.
A meu ver, o Modernismo veio impulsionar este desdobramento da personalidade em Fernando Pessoa, que o conduz à fragmentação e à criação de múltiplos seres, e que, consequentemente, conduz à contínua procura do seu autoconhecimento. E este processo não terá fim pelo que continuarão a aparecer várias vozes a fazer ecoar esse drama em pessoa ou essa polifonia mais ou menos (des)concertada.

Editado e organizado por José Fernandes Rodriguez

sábado, 11 de dezembro de 2010

“Apontamentos para uma Estética Não Aristotélica”, de Álvaro de Campos - Síntese Documentada


Trabalho realizado por João Filipe Afonso, Nº13, 12º B, 2010/11
Prof. João Morais

SÍNTESE DOCUMENTADA DO TEXTO “APONTAMENTOS PARA UMA ESTÉTICA NÃO ARISTOTÉLICA”, de ÁLVARO DE CAMPOS (publicado in Athena, nº 3 e 4, Lisboa Dez.-Jan. 1924-25.)

A estética aristotélica defende que o objectivo final da arte é a beleza, podendo, no entanto, existirem diferentes caminhos para se atingir esse objectivo.
Álvaro de Campos afirma que a estética é uma arte, que, para assim ser considerada, terá de se basear não numa ideia de beleza, mas sim numa ideia de força e energia, que surgem em consequência da vida, pois é produzida pelos seres vivos através da intensidade e do equilíbrio entre duas forças de interacção e integração. Estas dão vida à arte através de uma acção e de uma reacção baseadas na sensibilidade, isto é, a arte é realizada por se sentir e para se sentir.
“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados”. vv. 1-2 in Passagem das horas.

“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo”. vv. 41-42 in Passagem das horas.
Para Álvaro de Campos a estética aristotélica defende que, tal como a ciência, a arte parte do particular para o geral, quando na realidade o que acontece é que arte e ciência são fenómenos opostos, logo o correcto será a arte partir do geral para o particular e o exterior tornar-se interior, contrariamente à estética aristotélica, que pretende que os artistas generalizem ou humanizem a sua sensibilidade.
“Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos”. v. 4 in Passagem das horas.  

“Passa tudo, todas as cousas num desfile por mim dentro,
E todas a cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim”. v. 69 in Passagem das horas.
Para o autor, a arte é um fenómeno social que, para ser atingida, obriga ao equilíbrio e à coexistência de dois sentimentos que o homem possui e que o fazem assumir uma forma de vida social sã: o espírito gregário, que se traduz na igualdade entre os homens, e o espírito individualista ou separatista, que os afasta. Importa ainda analisar as duas formas que o espírito antigregário ou separativo podem assumir: o isolamento (afastamento dos outros) e o domínio. Se considerarmos o domínio uma forma social contrária ao isolamento, poderemos então concluir que arte implica um esforço para dominar os outros.
“Não me subordino senão por atavismo”. v. 246 in Passagem das horas.

“Sinta na cabeça a velocidade do gira da terra,
e todos os paizes e todas as pessoas giram dentro de mim”. vv. 309-310 in Passagem das horas.

“Sou eu me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha circulo –mim!”. vv. 391-392 in Passagem das horas.

“Eu, a paysagem por detraz d’isto tudo, a paz citadina[…]
Eu, tudo isto, e além d’isso o resto do mundo...”. vv. 35-36 in Passagem das horas.
Os processos a destacar para atingir o domínio são a captação e a subjugação, que se manifestam em diferentes actividades como na política, na religião e na arte. Por exemplo, na política existe a democracia – a política de captação – e a ditadura – a política de subjugação. Na arte, tal como na política, existe a arte que domina captando, característica da estética aristotélica que se baseia na ideia de beleza, na inteligência, mais concretamente na subordinação da sensibilidade à inteligência para que aquela seja humana e universal, agradável e acessível para poder captar os outros, na unidade artificial e visível como a de uma máquina:
“Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lampada que arde” v. 339. in Ode Triunfal.
            Por outro lado, a arte em que o autor acredita e que defende é aquela que domina subjugando, baseando-se na ideia de força, na sensibilidade, que é particular e pessoal porque, se assim o não fosse, em vez de dominarmos, seríamos dominados.
            Contrariamente à arte aristotélica, Álvaro de Campos apoia-se na unidade espontânea, natural, sensorial, mas que nunca é visível, subordinando tudo a uma sensibilidade abstracta como a inteligência, forçando os outros, quer queiram quer não, a sentir aquilo que ele sentiu, ou seja, dominando-os pela força inexplicável, tal como o ditador espontâneo subjuga o povo fraco.
”Seja uma flor ou uma ideia abstracta”. v. 9. in A passagem das horas.

”Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti”. v. 103 in Passagem das horas.

”Tenho a fúria de ser raiz”. vv -  280. in A passagem das horas.
”Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,”. v. 314 in Passagem das horas.

”Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques/ […]”. vv. 332-336 in Passagem das horas.
”Assim como não gosto da vida, mas gosto de sentil-a…”. v. 95 in Passagem das horas.

Para Álvaro de Campos existem os artistas aristotélicos falsos e os verdadeiros; e os não aristotélicos verdadeiros, por um lado, e os simuladores, por outro lado: não é a teoria que faz o artista, mas sim o facto de se ter nascido artista.
”O binómio de Newton é tão belo como a Venus de Milo
O que há é pouca gente para dar por isso.” vv. 1-2  in Poema 115 [69 – II.]
A arte dos gregos retrata correctamente a teoria estética não aristotélica da arte baseada na força e na vitalidade, pelo facto de a beleza, a harmonia não serem conceitos provenientes da inteligência, mas disposições íntimas da sensibilidade. Os artistas gregos emitiam sensibilidade sobre tudo o que realizavam, contrariamente ao que acontece com a sensibilidade mais próxima de nós, alterada e adulterada pelas diferentes forças sociais, nomeadamente pelos romanos e franceses, que não permitiram que recebêssemos essa emissão de sensibilidade e emoção estética a não ser através do uso da inteligência.

Para o autor existem ainda mais restrições àquilo que desejamos chamar e considerar arte, pois uma simples ideia intelectual de beleza não habilita o artista a criar beleza: só a sensibilidade a cria e emite, da mesma forma que a mesma simples ideia intelectual de força pode não estar habilitada a criar a força que pretende criar, não passando de uma simulação da arte da força que acaba por não criar nada. Alguns artistas fazem arte não aristotélica falsa, porque não prescindem da arte aristotélica: realizam espontaneamente e exclusivamente má arte aristotélica, dado que a realizam com o recurso à inteligência e não com a sensibilidade.
”Estou cansado da intilligencia
Pensar faz mal às emoções
Uma grande reacção aparece.” vv.1-3 in Poema 43 [7I – I6].
Para Álvaro de Campos e até à sua actualidade existiram apenas três verdadeiras manifestações de arte não aristotélica: os poemas de Walt Whitman, as do mestre Caeiro e as suas próprias odes – por exemplo a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”.

            “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.” v. 19 in Poema segundo – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “O rebanho é os meus pensamentos,
            E os meus pensamentos são todos sensações.” vv. 2-3 in Poema nono – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “Uma hora para a loucura e a alegria! Ó furiosos! Oh, não me confinem.
            (O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
            Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos rugidores?)” vv 1-3 in Uma hora para a loucura e alegria, de Walt Whitman.

COMENTÁRIO FINAL
Pelo que ficou exposto, a obra de Álvaro de Campos apresenta uma face futurista sensacionista, defendendo uma estética não aristotélica baseada não na beleza, nos meros sentimentos e na inteligência, mas sim numa poesia triunfal, enérgica, carregada de emotividade e baseada na ideia de força individual, que se manifesta na vida subjugando os outros sem procurar captá-los pela razão. O poeta manifesta uma predilecção pela beleza feroz – “A maravilhosa belesa das corrupções políticas,” vv - 73. in Ode Triunfal – que simboliza a força da vida e da civilização industrial da época, contrariando a concepção aristotélica de beleza e realizando assim uma arte vigorosa.
“Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída” vv. 134-135. in Ode Triunfal,
O poeta procura ainda a totalização das sensações, conforme as sente ou pensa, ou seja, como poeta sensacionista, a única realidade são as sensações, expressando-as com uma energia explosiva, procurando sempre sentir a violência e a força dessas sensações:“sentir tudo de todas as maneiras”.

Será uma forma de escamotear a fragilidade ontológica de Fernando Pessoa?
Atentemos, a esse título, uma passagem da “Ode Triunfal”: na voragem e na força voluptuosa da máquina e do movimento emerge a “[…] infância [que] era outra coisa / Do que eu sou hoje…” vv. 189-90.

Registos Bibliográficos:
Os textos foram retirados da edição crítica de Cleonice Berardinelli: 
Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1990.

MEDITAÇÃO DE PERCEVAL de João Morais


Escrito uma noite em Londres, depois de uma récita do PARSIFAL, de Wagner.


MEDITAÇÃO DE PERCEVAL

deram-me um nome e fui ungido de castidade
o instinto guiou-me actos e passos
louco por perder o que não me deixaram escolher
ganhei a redenção
perdi a humanidade

pensar dói
como quem magoa o corpo
neste desencontro inevitável

tenho medo
movo-me na abertura da terra
por entre corpos que deixei traídos
miséria da existência divina

esta lança
que dizem santa
é o preço da renúncia
cisne mãe mulher
morte no feminino

meu filho resgatará o cisne
a romper o ar
no desenho da dor
de não dizer o nome

minha mãe não sofreu
a pena da deserção
anunciada de uma voz
provação de um deus por ser

o beijo de mulher deu-me luz
reclamada de deuses
miséria de uma existência divina
inconclusa
plena de pesar

louco de sedução e espírito
submisso do destino
que rege terra e céu
germe de perda
para sempre

habitar o corpo por dentro
clausura de paredes
sei que só vou habitar este corpo

um pássaro rompe os ares
desenha formas redondas

recolho-me no mar
murmúrio de um desejo incontido
desejo de ouvir o segredo adiado

verei de novo o mar
destino do meu ser
cansado
nos dias esgotados de divindade

                                                                  João Morais 
                                                                  Novembro de 2004

sábado, 20 de novembro de 2010

A Vida e Obra do Padre António Vieira


Pe António Vieira (1608-1697)

Vida e Obra...

Nasce em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1608, filho de Cristóvão Ravasco e Maria de Azevedo.
Lisboa








O pai, Cristóvão Ravasco é nomeado escrivão da Relação da Baía e em 1614 António Vieira, seu irmão Bernardo e os pais passam a viver no Brasil.

São Salvador da Baía
Colégio dos Jesuítas

António Vieira estuda no Colégio dos Jesuítas de S. Salvador da Baía. Em 1623 ingressa como noviço na Companhia de Jesus, prosseguindo os seus estudos com distinção.


Em 1624, na sequência de um ataque holandês à cidade da Baía, Vieira e os jesuítas refugiam-se no sertão. 
 
Fica a conhecer mais profundamente o dialecto e costumes dos índios e empenha-se na defesa destes.


Aos 18 anos é nomeado professor de retórica no Colégio de Olinda.

Colégio de Olinda




Entre 1635 e 1640 é ordenado padre, é Mestre em Artes e ganha prestígio como pregador.


Púlpito (São Salvador da Baía)




D. João IV

Entre 1641 e 1645 está em Portugal onde vem manifestar a fidelidade da colónia do Brasil ao novo rei D.João IV, de quem se torna amigo e confidente. É nomeado pregador régio e, nessas funções, é um aliado valioso da política real.

Entre 1646 e 1650 desenvolve intensa actividade diplomática ao serviço de D. João IV e de Portugal em diversas capitais europeias, inicia a sua obra profética História do Futuro (1649)e é ameaçado de expulsão da Ordem dos Jesuítas.


 Entre 1652 e 1661 está nas missões do Brasil, evangelizando os índios. Vem a Portugal em 1654 e consegue fazer aprovar leis mais favoráveis para os proteger, mas acaba sendo expulso com outros jesuítas pelos colonos do Maranhão. 

É neste período que prega alguns dos seus sermões mais notáveis.
Entre 1662 e 1668, perdida a protecção de D.João IV, que morre em 1656 e da rainha, D.Luísa de Gusmão, que deixa a regência após o golpe que entrega o poder a D. Afonso VI, o Pe António Vieira é perseguido, preso e condenado pela Inquisição. 

Na base das acusações de heresia estaria um seu manuscrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, primeira e segunda vida del-rei D. João IV. Posteriormente é amnistiado, mas é-lhe retirado o direito de pregar e discutir certas matérias.

Entre 1669 e 1675 vive em Roma.Ganha grande notorieda-de como pregador e denuncia combativamente as práticas da Inquisição, contra a qual obtém a protecção papal. É convidado pela rainha Cristina da Suécia para seu pregador.

 
Entre 1675 e 1681 está em a Lisboa, onde regressa por ordem do rei D. Pedro II, mas é mantido afastado da actividade política. 






Em 1679 inicia a edição dos seus Sermões.


Entre 1675 e 1681 está em Lisboa, onde regressa por ordem do rei D. Pedro II, mas é mantido afastado da actividade política.

A partir de 1681 regressa definitivamente ao Brasil. Prossegue a sua obra evangelizadora, continua a edição dos seus Sermões e a redacção da sua obra profética Clavis Prophetarum. É nomeado Visitador Geral dos Jesuítas no Brasil (1688), mas renuncia ao cargo em 1691 devido à sua idade avançada e falta de saúde.



Em 1697, morre a 18 de Julho, na Baía, com 89 anos


Bibliografia
Saraiva, António José, História da Literatura Portuguesa, 1º volume Editorial Estúdios Cor, SARL, Lisboa, Dezembro 1966;
Prado Coelho (direcção), Jacinto do, Dicionário de Literatura, vol. 4, 3ª edição, Ed. Figueirinhas, Porto, 1973;

Páginas WWW

academialiteraria.blogspot.com/2009_03_01_arc...;
embaixada-portugal-brasil.blogspot.com/2008/0...;
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bibesjcp.no.sapo.pt/PAV.htm
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Recolha e organização: Maria da Conceição Reis

sábado, 1 de maio de 2010

Estudo Ilustrado das Personagens de "Felizmente há Luar!" - 4ª parte


4ª parte e última...

O general Gomes Freire de Andrade e os seus amigos

Personagens do antipoder
Formam um grupo destacado, revelando-se ao longo da acção fiéis aos seus valores e a si próprios, unidos pela amizade e fidelidade a Gomes Freire.

General Gomes Freire de Andrade
General Gomes Freire de Andrade é a personagem central de toda a peça. Está sempre presente embora nunca apareça em cena. Assume uma grande importância no desenvolvimento da acção, pois condiciona a estrutura interna de toda a peça e os comportamentos de todas as outras personagens, surgindo nas palavras e pensamentos de todos.
O que sabemos sobre ele é através dos outros que, nos seus diálogos, discutem a figura do General. Assim, para os populares, apesar de General e estrangeirado, é um herói defensor da liberdade e da justiça, homem de grande coragem, “Um amigo do povo! Um homem às direitas! Quem fez aquele não fez outro igual…” ; para os amigos é visto como uma pessoa valiosa, amigo honesto, companheiro valente, franco, justo, leal, aberto, com grandes qualidades humanas, capacidade de liderança e defesa dos seus ideais, que enfrenta o poder instituído até às suas últimas consequências; e para os Governadores é uma ameaça ao poder absolutista, pelas suas ideias liberais e jacobinistas, “Trata-se dum inimigo natural desta Regência.”, “ Senhores governadores: aí tendes o chefe da revolta. Notai que não lhe falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado…”, homem de carácter firme, chefe de revolta perigoso e rotulado de traidor, devendo por isso ser morto e “abatido”. É primo e antigo camarada de armas de D. Miguel
Em suma, é amado pelo grupo de personagens que aspiram à liberdade e à abolição do regime absolutista, sendo visto como um herói; e é odiado por aquelas que vêem a sua existência como uma ameaça aos privilégios até então obtidos, sendo tratado como um tirano e um anti-herói.
Símbolo de esperança e liberdade, representa General Humberto Delgado e os outros políticos que foram presos por defenderem a integridade e a recusa da subserviência e por serem exemplos de coragem na defesa dos seus ideais.
Apesar de ser preso e executado numa fogueira em frente ao forte São Julião da Barra, a 18 de Outubro de 1817, General Gomes Freire de Andrade leva a uma reflexão sobre a situação política, social, económica e cultural do seu país, nomeadamente sobre o regime opressivo vigente que se fazia notar através das injustiças, das condenações e das torturas de todos aqueles que não apoiavam as ideias salazaristas. A sua luta serve para despertar consciências e para levar as pessoas a reagirem criticamente nas suas decisões.

 
Matilde Melo
Matilde Melo é a personagem dramaticamente mais elaborada de toda a peça “Felizmente há luar”.
Mulher de meia-idade, natural de Seia, uma terra pequena e pobre, foi criada entre árvores e penhascos e ensinada a amar Deus sobre todas as coisas. Quando conheceu o General, a sua vida era apenas um pequeno e limitado espaço dentro da sua aldeia. Mas com ele aprendeu a ver o mundo com outros olhos, vivendo os anos mais felizes da sua vida.
Amiga e mulher de General Gomes Freire de Andrade, mostra ser uma mulher carinhosa e apaixonada, revelando determinação e coragem. Apresenta um forte carácter, grande densidade psicológica e carga simbólica. “ Sou a mulher do general Gomes Freire d’Andrade.”
Surge no segundo acto como uma personagem de grande importância. Primeiramente aparece vestida de negro, desgrenhada e falando sozinha, após os polícias proibirem o ajuntamento de populares na rua. Quando se dirige a William Beresford usa um xaile à volta dos ombros. No final da peça, com o objectivo de ver o General pela última vez, veste a simbólica saia verde que o seu amado lhe comprou em Paris e que nunca chegara a usá-la até então. “Sabe o que é que ele fez com aquele dinheiro? Comprou-me uma saia verde. Disse-me que era para quando voltássemos a Portugal… […] Nunca a vesti…Nunca calhou, não sei porquê…”
É ela que tenta desesperadamente, pelo seu discurso e actos, salvar o General e tirá-lo da prisão, assumindo-se como voz da consciência e da revolta contra a injustiça humana. “Serei, então, a voz da sua consciência. (…)”; “Enquanto tiver voz para gritar…Baterei a todas as portas, clamarei por toda a parte, mendigarei, se for preciso, a vida daquele a quem devo  a minha!”. Enfrenta com heroísmo a falsidade e a hipocrisia do Estado e da Igreja, lutando pelos lemas da Revolução Liberal  - fraternidade, igualdade e liberdade — e pelos princípios que o seu marido tanto apoiava. À medida que se vai apercebendo da inutilidade das suas palavras, com o desespero, chega mesmo a questionar e contestar os valores que defendia, como o caso do próprio Deus.
Nela se concentra toda a força dramática da peça e a voz de um autor que, sob o motivo histórico, visa criticar a Ditadura Salazarista e todos aqueles anos conturbados do Antigo Regime. Matilde representa as mães, esposas, irmãs dos presos políticos que, lentamente, vão tomando consciência da situação política e que hesitam entre salvar a família ou defender o povo. No entanto esta mulher é, sem dúvida, uma força que tenta de tudo para defender os seus interesses e por denunciar as injustiças opressoras do poder social da altura.

Sousa Falcão
António de Sousa Falcão é o amigo inseparável de Matilde e de Gomes Freire. É o único amigo fiel ao General e representa as poucas pessoas que realmente lutam por aquilo e aqueles que amam, mesmo quando os momentos são os mais difíceis. Assistiu à morte do filho do casal amigo e apoia Matilde na sua luta.
Surge no segundo acto, acompanhando Matilde no seu sofrimento. Mostra-se solidário com esta e decide acompanhá-la para ir falar com os governadores. “ Não sei como agradecer-lhe tudo o que foi para nós, António: o amigo das coisas importantes e das pequenas coisas – essas pequenas coisas que só os verdadeiros amigos compreendem. Assistiu à morte do nosso filho e… agora, finge acreditar que vou ter ocasião de vestir a saia verde! Ainda que não creia, fico-lhe igualmente grata por ambas as coisas.”
Nutre uma grande admiração pelo General e pelos princípios que este defendia. A morte do seu amigo leva-o a reflectir sobre si próprio, sentindo-se culpado por não ter o mesmo destino, algo que não aconteceu graças à sua falta de coragem e cobardia. “(…) Só é digno de ser amigo de alguém quem de si próprio é amigo, Matilde, e eu odeio-me com toda a força que me resta. (…) As ideias de Gomes Freire são também as minhas, mas ele vai ser enforcado – e eu não. (…) Faltou-me sempre coragem para estar na primeira linha…”
Sousa Falcão representa as pessoas que acreditavam em Humberto Delgado mas que não tiveram coragem suficiente para intervir (com medo das represálias), ficando marcadas pelo desespero da situação. Podemos dizer que representa a impotência perante o despotismo dos governadores da época.

Frei Diogo
Frade Jerónimo Frei Diogo de Melo e Meneses é um representante do clero que faz parte do grupo de personagens do anti-poder, dentro da Igreja.
É uma personagem que aparece no segundo acto da peça, no meio de uma conversa entre o Principal Sousa e Matilde, após esta ter sido humilhada perante a resposta do governador quando lhe pede audiência.
É um homem sério, honesto, compreensivo e solidário que conforta Matilde com as suas palavras sobre o General Gomes Freire de Andrade. Frei Diogo apoia e elogia o General, afirmando que “se há santos, o General é um deles” ou “(…) Foi um privilégio que Deus lhe concedeu – o de viver ao lado dum homem como o general Gomes Freire” . Como homem sensível, compreende a dor que Matilde sente e procura confortá-la.
É o contraposto do Principal Sousa. Está consciente da injustiça de repressão e da perseguição política e é sincero em relação à sua posição, declarando o que realmente pensa e sente e não se dando ao trabalho de grandes subtilezas. “ Talvez tenha razão, Reverência, mas não sou homem para grandes subtilezas. (…)”
Em termos de paralelismo em relação à Década de 60, representa a facção da Igreja que estava consciente da situação, o grupo da Tribuna Livre (1968).

 

Breve Glossário de Outros Conceitos

Liberalismo
O Liberalismo é uma corrente política que abrange diversas ideologias históricas e presentes, que proclama como devendo ser o único objectivo do governo a preservação da liberdade individual. Concede o direito à discordância das doutrinas ortodoxas e das autoridades estabelecidas em termos políticos ou religiosos
Absolutismo
Absolutismo é um termo usado para identificar um regime político europeu, característico da Idade Moderna, que no caso português, de acordo com alguns autores, tem a sua "origem" no reinado de D. João I.
No Absolutismo português o rei era aclamado e obrigado a prestar um juramento pelo qual se comprometia a respeitar o povo, as leis da Igreja e os privilégios e costumes do reino, isto é, o monarca comprometia-se a aceitar a lei moral e religiosa, bem como as tradições.
       Depois de restabelecida a paz com Espanha na sequência das guerras da Restauração, entrou-se num novo período da monarquia absoluta, que englobava os reinados de D. Pedro II e D. João VI, durante os quais não houve uma mudança na estrutura absolutista continuou, de uma maneira geral, um Absolutismo tradicionalista. 
D. João VI
Rei de Portugal de 1816 a 1826, era filho segundo de D. Maria I e de D. Pedro III. Nasceu em 1767. Casou em 1785 com D. Carlota Joaquina, filha de Carlos IV de Espanha. Tornou-se herdeiro do trono por morte de seu irmão D. José, em 1788.
Em 1807, juntamente com a família régia, embarcou para o Brasil. D. Maria morreu em 1816 e D. João VI foi aclamado rei. Em 1820 deu-se a Revolução Liberal e o monarca regressou a Lisboa em 1821, onde jurou a Constituição Liberal de 1822.
D. João VI faleceu em 1826, deixando o governo entregue à regência da infanta D. Isabel Maria em nome de D. Pedro IV, imperador do Brasil. 
       D. Miguel
Terceiro filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, nasceu em Queluz, a 26 de Outubro de 1802, e morreu em Brombach, a 14 de Novembro de 1866. Vigésimo nono rei de Portugal (1828-1834), ficou conhecido pelos cognomes o Usurpador e o Absolutista.
Na sequência da primeira invasão francesa, embarcou, em 1807, com a família real para o Brasil, de onde regressou acompanhado dos pais em 1821, tendo ficado o seu irmão D. Pedro a governar o Brasil.
       Aquando da morte de D. João VI, D. Miguel escreve para o Brasil e D. Pedro IV, numa tentativa de conciliação, abdica do trono português a favor de a sua filha D. Maria da Glória, na condição de ser jurada a Carta Constitucional e da sua filha casar com D. Miguel. Este não só celebra os esponsais com a sobrinha como jura a Carta Constitucional outorgada por seu irmão.
       Chegado a Lisboa em Fevereiro de 1828, D. Miguel jura novamente a Carta. Porém, decorrido pouco tempo, falta ao compromisso assumido com o seu irmão, nomeia um novo ministério, dissolve as Câmaras e, convocadas as cortes à maneira antiga, é proclamado pelos três estados do reino rei absoluto. Assim, inicia-se a guerra civil que se prolongaria por dois anos (1832-1834) e que levaria D. Maria II ao trono. Mais tarde, verificando a impossibilidade de continuar a luta, D. Miguel rende-se, assinando em 26 de Maio de 1834 a Convenção de Évora-Monte. No dia 1 de Junho de 1834, D. Miguel deixa definitivamente Portugal.
       D. Pedro IV
       Monarca português, segundo filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, nasceu em Queluz em 12 de Outubro de 1798, onde faleceu em 24 de Setembro de 1834.
       Já no Brasil, casou com a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, de quem teve dois filhos: D. Maria da Glória (1819) e D. Pedro (1825). D. João VI, por intimativas de Lisboa, nomeia regente do Brasil D. Pedro (devido à agitação popular no Rio, Pará e na Baía, de inspiração liberal) e volta a Portugal.
       Em 1822, o regente proclamava formalmente a independência brasileira, junto ao Ipiranga, estado de São Paulo, sendo mais tarde proclamado imperador do Brasil. Quando em 1826, D. João VI morre, e se abre o problema da sucessão, D. Pedro é proclamado rei de Portugal, conforme as determinações paternais. No decurso do seu breve reinado, confirma D. Isabel Maria na regência, outorga aos seus súbditos uma Carta Constitucional (V. este nome) e abdica, condicionalmente, da sua filha D. Maria da Glória, com a condição do casamento desta com seu tio D. Miguel (V. este nome), que devia jurar a Carta. Após a doação da Carta os acontecimentos precipitaram-se: em Portugal, D. Miguel começa a governar como rei absoluto (1827) e os liberais são expatriados, presos ou enforcados.
       Tendo abdicado de duas coroas, o ex-imperador do Brasil e ex-rei de Portugal, reduzido ao título de duque de Bragança, abandona o Brasil e dirige-se para a Europa com a filha D. Maria II, rainha de nome, por cujo trono se batiam os liberais portugueses espalhados pela Europa, ou reunidos na Ilha Terceira. O duque de Bragança decide empenhar-se pessoalmente na solução e a 3 de Março de 1832 assume a regência.
       A convenção de Évora Monte põe fim à cruel guerra civil, e exila o rei absoluto. Pouco mais viveria D. Pedro: só o tempo suficiente para ver as Cortes reunidas de acordo com a carta, tendo falecido 4 dias após o começo do reinado de D. Maria II.
       Carta Constitucional
A Carta Constitucional representou um compromisso entre a doutrina da soberania nacional, adoptada sem restrições pela Constituição de 1822, e o desejo de preservar os direitos régios, o que descontentou os vintistas, que eram mais radicais, e os absolutistas, bastante mais conservadores. Acabou, todavia, por ser jurada por todos, incluindo D. Miguel.
A Carta vigorou durante três períodos:
O primeiro entre Julho de 1826 e Maio de 1828, data em que D. Miguel convocou os três Estados do Reino, que o aclamaram rei e decretaram nula a Carta Constitucional;
- O segundo iniciou-se em Agosto de 1834, com a vitória do Partido Liberal na Guerra Civil e a saída do País de D. Miguel, e termina com a revolução de Setembro de 1836, que proclama de novo a Constituição de 1822 até se elaborar nova Constituição, o que sucedeu em 1838:
- O terceiro período começa com o golpe de Estado de Costa Cabral, em Janeiro de 1842, e só termina em 1910, com a República. Durante este último período sofreu três revisões profundas, em 1852, 1885 e 1896.
ão se sabe ao certo quem foi o seu autor, presumindo-se que tenha sido José Joaquim Carneiro de Campos. Quem quer que fosse utilizou como fontes a Constituição do Império do Brasil, a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional outorgada por Luís XVIII de França em 1814.
       Convenção de Évora-Monte
       Convenção que pôs termo à luta entre os exércitos de D. Pedro e D. Miguel, celebrada entre liberais e absolutistas, e assinada em 26 de Maio de 1834, pela qual D. Miguel se obrigou, perante a Inglaterra, a Espanha e a França, a fazer depor as armas ao seu exército.
       Os miguelistas haviam ficado completamente desanimados e muitos oficiais abandonaram a causa absolutista levando consigo muitos soldados; o próprio coronel dos dragões de Chaves, que era compadre de D. Miguel e lhe devia muitos favores, desertou com quase todo o regimento. O procedimento deste militar foi censurado até pelos próprios liberais. As relíquias do exército de D. Miguel, abandonando as fortes posições de Santarém, atravessaram o Tejo em direcção a Évora, onde houve ideia de tentar a sorte das armas, porque as tropas miguelistas ainda ascendiam a dezanove mil homens, mas completamente desmoralizados por sucessivas derrotas.
       Reconhecendo a ineficácia de prolongar a resistência, assinou-se a convenção.
       Marxismo
       Sistema doutrinário do economista alemão Karl Marx (1818-1883), segundo o qual é a produção de bens materiais que condiciona, de modo geral, a vida social, intelectual e política, e que considera o colectivismo dirigido pelo Estado como termo fatal e necessário na evolução social.
       Nacional-Socialismo
       Movimento político chefiado por Adolf Hitler, que veio a governar a Alemanha desde 1933 até ao fim da II Guerra Mundial (1945), e cuja ideologia totalitarista assentava fundamentalmente num nacionalismo exagerado e ferozmente racista; Nazismo.

NOTA FINAL, dos autores:
   Com todo este trabalho de pesquisa e análise aqui apresentado,  esperamos ter ido de encontro do desafio que nos foi proposto inicialmente. Ao longo deste projecto foi-nos permitido assimilar novos conhecimentos, o que se mostrou muito positivo e enriquecedor para o nosso desenvolvimento académico.
Esperamos que o mesmo aconteça a todos os alunos que tiverem contacto com este trabalho sobre a obra Felizmente Há Luar!

Bibliografia

Fontes da Internet:
Ø      esbatalha.ccems.pt/romanicas/12ano/stau_monteiro/sintese.pdf
Ø      pt.wikipedia.org/wiki/Felizmente_Há_Luar!
Ø      aulaportugues.no.sapo.pt/textosapoiofhl.htm
Ø      www.lithis.net/52
FIM 

Publicado por José Fernandes Rodriguez