O BlogBESSS...

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Blog ou Blogue, na grafia portuguesa, é uma abreviatura de Weblog. Estes sítios permitem a publicação e a constante atualização de artigos ou "posts", que são, em geral, organizados através de etiquetas (temas) e de forma cronológica inversa.


A possibilidade de os leitores e autores deixarem comentários, de forma sequencial e interativa, corresponde à natureza essencial dos blogues
e por isso, o elemento central do presente projeto da Biblioteca Escolar (BE).


O BlogBESSS é um espaço virtual de informação e de partilha de leituras e ideias. Aberto à comunidade educativa da ESSS e a todos os que pretendam contribuir para a concretização dos objetivos da BE:

1. Promover a leitura e as literacias;

2. Apoiar o desenvolvimento curricular;

3. Valorizar a BE como elemento integrante do Projeto Educativo;

4. Abrir a BE à comunidade local.


De acordo com a sua natureza e integrando os referidos objetivos, o BlogBESSS corresponde a uma proposta de aprendizagem colaborativa e de construção coletiva do Conhecimento, incentivando ao mesmo tempo a utilização/fruição dos recursos existentes na BE.


Colabore nos Projetos "Autor do Mês..." (Para saber como colaborar deverá ler a mensagem de 20 de fevereiro de 2009) e "Leituras Soltas..."
(Leia a mensagem de 10 de abril de 2009).


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BlogBESSS e as indicações de "Como Comentar.." nas mensagens de 10 de fevereiro de 2009.


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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Texto de Reflexão... A viagem...

Desde tempos imemoriais que a humanidade sentiu a necessidade de conhecer, de explorar, movida pela curiosidade, característica intrínseca ao ser humano que o levou a aventurar-se além das fronteiras físicas e mentais que até então conhecia. Isto permitiu-nos o convívio com outros povos, culturas e maneiras de pensar, promovendo uma abertura de horizontes à índole de cada um, possibilitando o conhecimento do outro e de nós mesmos.

É inegável que a viagem promove o enriquecimento pessoal do indivíduo, pois, mais do que mera visita a um país, mais ou menos longínquo, quando o coloca em confronto com tradições antagónicas à sua, quando o coloca perante a diferença, leva-o a confrontar-se com essa diferença para compreender o outro. Viajar até à Índia, por exemplo, pode significar sentir intensamente os cheiros, os paladares, mas também destruir visões idealizadas quanto à serenidade deste mesmo país e abrir a mente a uma nova realidade para melhor compreendermos o outro. Esta abertura de horizontes também deixa marcas perenes nos viajantes que se confrontam com estas realidades vividas em países como a Índia. Por exemplo, Angelina Jolie, ao visitar o Camboja e ao ser colocada em confronto com a dura realidade deste país asiático, decidiu adotar o seu primeiro filho e contactar o ACNUR, do qual é atualmente embaixadora – a integração dessa realidade diferente humanizou-a, levou-a a atuar afetiva e socialmente.

Para além disso, a viagem é, talvez, das poucas oportunidades que nos concedemos para que o inesperado entre nas nossas vidas, pois não há muitas vezes preparação possível para o embate com novas culturas e para o encontro com outros povos. Estamos habituados ao nosso quotidiano e poucas vezes somos surpreendidos com o inesperado, mas, quando viajamos, o nosso destino será sempre desconhecido que primeiro nos surpreende, mas que, com o passar do tempo, nos mostra um pouco do que somos. Por exemplo, chegar a uma cidade desconhecida pela primeira vez provoca algum desconforto, pouco a pouco substituído pela sensação de descoberta. A primeira impressão que este novo espaço provoca nunca se dissipará e é algo que acrescentamos àquilo que somos. Vejamos o caso dos nossos concidadãos que, um dia, pela força das circunstâncias tão adversas como a precariedade da vida, tiveram de ir à aventura para outros lugares, muitas vezes noutros continentes, trabalhar e integrar toda uma cultura e rotinas, que, apesar de diferentes, foram por eles assimiladas. Quem não acredita na capacidade dos portugueses de se aculturarem e acomodarem de modo harmonioso e autêntico a outros contextos e a outras culturas?

Por outro lado, ainda que a viagem física permita enriquecer o ser humano a vários níveis, viajar é, nos dias de hoje, infelizmente, quase um luxo, o qual é acessível apenas a uma minoria da população. É, também, altamente redutor considerar que apenas a viagem física permite um pleno conhecimento do outro e até de nós próprios. A emoção despertada no viajante ao chegar a uma cidade como Roma, por exemplo, passando por monumentos famosos, como o Coliseu, pode ser substituída, mesmo que parcialmente, pela leitura ou até pelo cinema, o que não deixa de ser outra forma de viajar. Os livros e os filmes, mais acessíveis, permitem, de facto, para além de conhecer novos povos, novas culturas, novos espaços, conhecer as emoções que novos lugares provocaram nos seus autores. Pensemos no cado de Puccini, que, apesar de nunca ter ido ao Oriente, compôs óperas com uma trama e contornos culturais como os do Japão, em Madama Butterfly (1), ou como os da China, em Turandot (2).

Em suma, é um facto que viajar enriquece o ser humano e promove tanto a descoberta do outro como também, pelas experiências que nos proporciona, a de nós próprios. Mais do que a viagem física por si só, importa, de facto, saber em que medida ela transforma e deixa marcas perenes no viajante.

(1) sugestão da autora: 
https://www.youtube.com/watch?v=EgHOhLrN3eQ
(2) sugestão da autora: 
https://www.youtube.com/watch?v=7cMwIAirZQY

Autora: Inês Vidal, 11º B
Prof. João Morais

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Folhas Caídas: uma experiência de leitura

·         Introdução
        A obra Folhas Caídas, de Almeida Garrett, engloba um conjunto de poemas de temática amorosa, escritos no fim da vida de poeta. Ao que se crê, estas composições poéticas são um reportório em verso dos sentimentos que a paixão pela Viscondessa da Luz terá despertado em Garrett.
        Nesta obra observa-se uma poesia confessional, um misto de sinceridade e fingimento, exibicionismo e desengano.
        A obra é inovadora pela forma utilizada, com o predomínio da redondilha maior e da menor, o uso da sinestesia e uma certa conceção dramática que subjaz à maioria dos poemas e que se traduz no tom coloquial da linguagem. 
       Esta coletânea de poemas é, sem dúvida, a mais interessante de Garrett e é nela que mais livremente se expande o individualismo romântico e a frescura dum estilo solto e sem peias.

A Advertência
      A anteceder os poemas, pode ler-se a Advertência datada de Janeiro de 1853. Nela encontram-se algumas linhas de leitura da poesia amorosa deste livro.
       Na Advertência, Garrett começa por sugerir que a coletânea Folhas Caídas não é fruto de um acaso, antes o produto de uma escolha criteriosa (“ [...] essas folhas de poesia que por aí caíram vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar […] ”).
      No parágrafo seguinte é possível reconhecer que Garrett tem a peculiaridade de saber jogar com o leitor, desculpando-se sempre (“ Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim.”).
      De seguida, o autor refere o tom confessional e intimista que perpassa os diversos poemas da obra (“ Os cantos que formam esta pequena coleção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida […] ”) e afirma que haveria de ser poeta em tudo e durante toda a vida, reforçando, deste modo, o seu carácter romântico (“ Poeta na Primavera, no Estio e no Outono da vida, hei de sê-lo Inverno, se lá chegar, e hei de sê-lo em tudo”).
     Mais à frente ainda na Advertência, o poeta mostra a sua indiferença perante a reação do público aos seus poemas (“ E como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente que o autor. Que importa?”). É de destacar também o facto de Garrett considerar que o melhor juiz que pode ter é ele próprio, enquanto homem lúcido, de olhos abertos (“ [...] parece-me que o melhor e mais reto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho os olhos abertos […] ”).
     Neste seguimento, Almeida Garrett reconhece os defeitos dos seus poemas, mas revela-se incapaz de os queimar (“Enfim, eu não queimo estes.”), pois, na sua opinião, esta tarefa não lhe cabe a si, mas ao Deus que o inspirou na elaboração dos mesmos (“E o deus que os inspirou que os aniquile se quiser: não me julgo no direito de o fazer eu”). Este deus desconhecido (Ignoto Deo), a quem o poeta consagra os seus versos, é mistificado e envolvido num manto de mistério (“O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma […] ”).
     Na parte final da Advertência, Garrett fala sobre a loucura do poeta que aspira atingir o impossível, o infinito, estabelecendo-se uma contradição entre a aspiração dos poetas ao ideal e ao infinito (“ […] que tendendo para o fim único, a posse do Ideal […] ”) e a incapacidade dos mesmos de o atingir (“Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele.”).
    Por fim, o autor termina a Advertência sublinhando o estatuto do poeta enquanto ser incompreendido (“ [...] vós não entendeis nada dele.”). Este revela-se ao mesmo tempo como um ser superior, que na morte apenas perde a matéria, a pequena parte em que se assemelha aos homens (“ […] só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco.”), prevalecendo eterno o seu espírito.
Este inferno de amar
    Em primeiro lugar, neste poema é feita uma reflexão sobre uma relação amorosa que funciona ao mesmo tempo como fonte de vida e de dor para o eu poético.
    Esta composição poética, cujo tema gira à volta das contradições do amor, pode dividir-se em três partes lógicas. Na primeira parte, a primeira estofe, o eu poético pergunta a si próprio como foi possível aparecer em si esse amor fatal (“Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?”),  que, a um tempo, o consome e lhe dá vida (“Esta chama que alenta e consome,/Que é a vida […] ”). Na segunda parte, a segunda estrofe, o sujeito poético recorda-se com saudade da vida serena e sonhadora que tinha vivido antes (“A outra vida que dantes vivi/ Era um sonho talvez […] / Em que paz tão serena a dormi!”), questionando-se depois sobre quem o veio tirar desse sonho (“Quem me veio, ai de mim! Despertar?”). Na terceira parte, isto é, na terceira e última estrofe, o eu poético parece encontrar o motivo desse fatal amor (“E os meus olhos […] / Em seus olhos ardentes os pus.”) que veio modificar a sua vida.

   Por outro lado, é de notar a relação de oposição que se estabelece entre o presente e o passado neste poema de Garrett. O presente (primeira estrofe) surge em oposição a um duplo passado: o passado anterior à amada (segunda estrofe) e o passado com a mesma (terceira estrofe). Assim, pode inferir-se que o sentido dubitativo do poema (“ Que fez ela? Eu que fiz?”) é também visível na sua organização interna, que não é determinada por uma ordem cronológica.

    Através da análise do poema, é possível perceber que o retrato da mulher aqui presente é o da mulher fatal, típica do Romantismo, que arrasta o eu poético para o abismo da perdição. Esta mulher proporciona ao sujeito poético uma vida de “inferno”, com uma relação amorosa ardente desde o momento em que se conheceram, tornando ela a existência do eu poético desejada, viva, com razão de ser.

     Relativamente à forma, esta composição poética é constituída por três sextilhas. A rima não obedece a um esquema rígido sendo cruzada no segundo e quarto verso, emparelhada no quinto e sexto e branca nos restantes – expressão da liberdade que Garrett inaugura na poesia portuguesa. Quanto ao ritmo do poema, verifica-se uma cadência ternária com acentos na 3ª,6ª e 9ª sílabas métricas.

     Neste poema, Garrett utiliza uma linguagem simples e recorre a diversos recursos de estilo para transmitir os estados de espírito do eu poético e obter um lirismo subjetivo e profundo. Entre estes recursos de estilo destacam-se a metáfora (“este inferno de amar”) e a antítese (“alenta e consome”- efeito contraditório do amor).

      Por fim, é também importante sublinhar as características românticas presentes tanto na forma como no conteúdo do poema. Relativamente à forma, para além da escrita livre sem rigor no metro e na rima, a linguagem é simples e o ocorre uma panóplia de recursos estilísticos para representar o estado de alma do sujeito poético. Destaca-se a utilização de uma linguagem coloquial com predomínio para repetições, interjeições, frases interrogativas e suspensas, como marca do Romantismo. Por outro lado, relativamente ao conteúdo, o tom retórico, a hiperbolização do sofrimento do eu poético, a divinação da mulher como mulher fatal e a importância dos sentimentos são marcas românticas muito presentes neste poema de Garrett.
      Em conclusão, interroga-se a natureza do amor num poema de uma veemência raramente atingida na poesia portuguesa.
 Os cinco sentidos
                Em primeiro lugar, nesta composição poética há uma superlativação da mulher amada face à Natureza. Verifica-se uma dependência do eu poético relativamente a essa mulher, em virtude de não lhe serem despertados quaisquer dos cinco sentidos sem ela e não encontrar qualquer prazer, beleza, alegria no mundo exterior. Todos os seus sentidos estão centrados e orientados para ela (“A ti! ai, a ti só os meus sentidos/ Todos num confundidos,/ Sentem, ouvem, respiram;”).
                Este poema, cujo tema passa pelo amor sensual, erótico e mesmo pela excitação carnal, pode ser dividido em duas partes lógicas. A primeira parte, as primeiras cinco sextilhas, corresponde ao registo das cinco sensações do sujeito poético a partir do que a Natureza e a amada lhe oferecem (“Mil cores - divinais têm essas flores; […] / Não vejo outra beleza/ Senão a ti - a ti!”), num crescendo de sensações tendentes noa segunda parte ao paroxismo do êxtase. A segunda parte, a última estrofe, sintetiza a entrega total do eu poético à amada (“A minha vida em ti;/ E quando venha a morte,/ Será morrer por ti”).
                Relativamente ao conteúdo de cada estrofe, na primeira sextilha existe uma incapacidade por parte do eu poético para apreciar a beleza das estrelas e das flores, pois está obcecado pela beleza da mulher amada (“Em toda a natureza/ Não vejo outra beleza/ Senão a ti […] ”). Nesta estrofe é estabelecida uma relação entre a amada e a Natureza, verificando-se uma superlativação desta última através da conjunção adversativa mas (“Mas eu não tenho, amor, olhos para elas”), do advérbio de exclusão senão, da repetição da expressão a ti e pela exclamação final (“Senão a ti - a ti!”). Ainda relativamente à primeira estrofe é importante salientar que todo o discurso do eu poético se destina à amada, cuja presença silenciosa está patente no vocativo amor e pelas formas pronominais da segunda pessoa.
                Na segunda sextilha o sujeito poético revela-se incapaz de apreciar a voz harmoniosa do rouxinol (“[…] mas eu do rouxinol que trina/ Não oiço a melodia”), pela razão da  sua audição apenas captar os sons da mulher amada, constatando-se, nesta estrofe e no resto do poema uma superioridade da amada em relação à Natureza, facto que concorre para o seu estatuto de mulher-anjo, típico do romantismo.
                Na terceira, na quarta e quinta sextilhas o eu poético revela-se igualmente incapaz de apreciar a natureza, ao nível do olfato, do paladar e do tato respetivamente. É de destacar o reforço do caráter erótico do amor na quarta e quinta estrofes. Na última estrofe, verifica-se que os sentidos do eu vibram na presença da amada, a quem ele entrega a sua vida (“A minha vida em ti;/ E quando venha a morte,/ Será morrer por ti”), sofrendo, assim, de uma morte de amor por excesso de felicidade e prazer, ou seja, uma morte que se renovará no orgasmo do fim da comunhão sexual.
                Ao longo desta composição poética de Garrett, a referência aos cinco sentidos está organizada de forma progressiva nas cinco primeiras estrofes: do mais distante (visão) ao mais próximo (tato), do mais abstrato ao mais concreto, da observação exterior ao contacto físico.
                Neste poema, Garrett recorre a metáforas para confirmar o carácter erótico da composição poética (“relva luzidia” = corpo da mulher), comparações para exaltar a mulher amada (“ São belas… Senão a ti”), hipérboles (“Mil cores”) e à anáfora da expressão a ti para mostrar o estado emocional do sujeito poético. A sensualidade que ressuma das palavras e do ritmo terão feito corar as faces mais pudicas dos leitores que, porventura, terão lido estes versos às escondidas.
                Será assim ainda hoje?
                Relativamente à forma, o poema é composto por cinco sextilhas e uma oitava final. As sextilhas apresentam três versos decassilábicos e três versos hexassilábicos, enquanto a oitava tem um verso decassilábico e os restantes hexassilábicos. Quanto à rima, esta é cruzada e emparelhada tanto nas sextilhas como na oitava, apresentando as sextilhas igualmente versos brancos.
                Por fim, este poema apresenta características românticas, das quais se destacam a ligação amor e Natureza, a valorização da sensualidade, o individualismo, a presença do ideal da mulher-anjo e a rejeição do conhecimento racional pelos sentidos.

·         Cascais
                Este longo poema, cujo tema é a saudade, divide-se claramente em três partes. Na primeira parte, da primeira à terceira estrofes, o sujeito poético descreve a Natureza (“O mar que incessante brama…/ Tudo ali era braveza/ De selvagem natureza.”). Esta descrição apresenta uma conotação positiva e corresponde ao passado do eu poético antes da amada. De seguida, na segunda parte desta composição poética, da quarta à oitava estrofes, a descrição das estrofes anteriores dá lugar à narração e o eu poético narra o seu passado com a amada, tempo de felicidade amorosa (“Ali sós no mundo, sós,/ Santo Deus! Como vivemos!”). Na terceira parte, isto é, nas três últimas estrofes, o sujeito poético retoma a descrição, mas desta vez esta apresenta uma conotação negativa (“Mas o céu já não começa:/ Sumiu-se na treva espessa, / E deixou nua a bruteza”). A diferença entre as duas visões da Natureza resulta da alteração dos sentimentos do sujeito poético (“Oh! Que fatais desenganos,”).
                A descrição da Natureza neste poema de Garrett corresponde a uma visão romântica, quer pelos elementos que a compõem, quer pela caracterização dos mesmos, quer pela imagem global que dela resulta (“braveza”, “selvagem natureza”, “bruteza”, “agreste natureza”). Ainda no âmbito do modelo romântico encontramos a relação amorosa entre o sujeito poético e a amada, visto que se verifica o isolamento (“sós no mundo sós”), a exclusividade (“Como ela vivia em mim/ Como eu tinha nela tudo”), a perda de noção da realidade (“essas horas fugidias/ séculos na intensidade”) e a impossibilidade de se realizar no presente (“depois os senti/ Os travos que ela deixou…”).
                Neste longo poema de onze estrofes de seis versos, com um esquema rimático fixo (ababcc), existe um espaço delimitado, à semelhança das obras dramáticas, dentro do qual se desenrola a narrativa sentimental (amei, deixei de amar). Este espaço é a serra, mais concretamente “ali” onde acaba a Terra (“Acabava ali a Terra”). Esse ponto concreto é referido por diferentes deíticos espaciais nas três partes do poema (“Aí na quebra do monte”; “Ali sós no mundo […] ”; “Lá onde se acaba a Terra”). Esta alteração de posições está relacionada com a passagem do tempo, elemento estrutural deste poema. A passagem do tempo corresponde à mudança dos sentimentos do sujeito poético dentro do esquema tipicamente romântico: ao passado corresponde o tempo da felicidade; o presente é o tempo da desilusão e do sofrimento.

                Em conclusão, este poema retrata o drama do tempo que mata o milagre do amor, refletido no lugar (Cascais). O lugar é o mesmo e já não é, ela é a mesma e já não é, ele é o mesmo e já não é, visto que o tempo passou. No entanto, Cascais é a memória.

·         Barca bela
                Nesta composição poética, cujo tema é o poder de sedução da mulher, Garrett alerta todos os homens para os perigos que podem advir de um relacionamento amoroso.

                Neste poema, alguns elementos encontram-se revestidos de simbolismo, isto é o caso da estrela que simboliza a fatalidade e da sereia que é simbolicamente usada para designar os perigos.

                Este poema de Garrett pode ser dividido em três partes lógicas. Na primeira parte, a primeira quadra, há uma constatação da beleza da mulher (“Que é tão bela?”). Na segunda parte, da segunda à quarta quadra, o sujeito poético alerta o pescador das precauções (“Colhe a vela,”) a tomar para não cair em tentação (“ Não se enrede na rede dela”) e avisa-o acerca de possíveis perigos (“Deita o lanço com cautela,/ Que a sereia canta bela…/ Mas cautela,”). Na terceira parte, isto é, na quinta estrofe, o eu poético dirige um apelo ao amante para que não se envolva (“Pescador da barca bela,/ Inda é tempo, foge dela,”).

          Relativamente à caracterização da mulher verifica-se que esta é ao mesmo tempo descrita como fonte de beleza e de encantamento (“Que é tão bela”; “Que a sereia canta bela”) e como fonte de perigo (“Foge dela”).

         Este poema apresenta uma variedade de recursos estilísticos, entre os quais se encontram: a metáfora, presente, por exemplo, na sereia que simboliza a sedução e os perigos da vida; a apóstrofe (“Pescador da barca bela,”); e a aliteração (“ […] barca bela,/ […] com cautela”).

          Em termos linguísticos, nesta composição poética predominam o uso do imperativo (“Colhe a vela,”), o tom coloquial (“Onde vais […] ”; “Inda […] ”), os trocadilhos (“ […] enrede a rede […] ”) e as repetições (“Pescador da barca bela,/ […] foge dela,/ Foge dela,/ Oh pescador!”), as quais mostram a urgência do apelo e a iminência do perigo.

        Quanto à forma, este poema é composto por cinco quadras, nas quais dois versos são heptassilábicos, e os outros dois são trissilábico e tetrassilábico, respetivamente. O esquema rimático é aaab em todas as estrofes pelo que a rima é emparelhada, havendo igualmente um verso solto em cada quadra.

        Neste poema encontram-se presentes alguns aspetos românticos: a superioridade e a atração fatal da mulher (sereia), a ligação à poesia popular e a acentuação da teatralidade do discurso.

       Em conclusão, esta composição poética de Garrett é notavelmente marcada pelo Romantismo do qual o poeta foi um exemplar seguidor, tratando-se este poema de um conselho de fuga e de renúncia ao amor.
                                                                                                                                           
·         Conclusão
       Tendo escandalizado o público leitor da época, que no entanto o lia avidamente, é comovente vermos como a alma de Garrett se desnuda em Folhas Caídas, não hesitando em se expor ao ridículo devido à exploração do escândalo e da sensualidade.

      Em Folhas Caídas, o seu último livro de poemas, Garrett liberta-se definitivamente da formação arcádica e compõe uma obra inovadora e moderna, tanto pelo conceito de amor que nela canta, uma devastadora paixão sensual, como pela métrica, inspirada na poesia popular, com predomínio da redondilha maior e menor, como pela expressão liberta de peias e convenções.

Autora: Inês Vidal, 11º B
Prof. João Morais

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Mensagem – a superação da história e do concreto e uma atitude empreendedora do futuro

A Mensagem, de Fernando Pessoa, constitui um conjunto de poemas de natureza lírica com contaminação épica, com forte dimensão simbólica. A obra encontra-se dividida em três partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto.
A primeira parte simboliza o nascimento de Portugal, abordando as contribuições dos vários heróis para a fundação da nação. Dentro da secção “Os Castelos”, Ulisses terá erguido a cidade de Lisboa e enriquecido a cultura e o imaginário dos portugueses com a cultura grega. Apesar de este mito não ter uma natureza factual, valoriza a realidade e enche de sentido a essência dos portugueses. 
Para Pessoa somos essencialmente valores! 
Um outro herói da obra, D. Dinis, planta pinhais intuindo que, futuramente, eles serão utilizados na construção de naus. Contribui, assim, para os Descobrimentos e a consequente glória do povo português. D. Sebastião, glorificado na secção “As Quinas”, assume uma dimensão espiritual, pondo em relevo o sacrifício que imortaliza e glorifica o ser humano. A sua loucura trouxe-lhe grandeza e distinguiu-o do vulgo, transformando-o num símbolo de ousadia e conferindo-lhe uma dimensão mítica, que vai além da sua dimensão histórica: “Ficou meu ser que houve, não o que há” in “D. Sebastião, Rei de Portugal”. 
A segunda parte simboliza a vida, isto é, a expansão e afirmação do Império. O Infante é considerado o impulsionador dos Descobrimentos, o eleito para principiar a descoberta dos mares e a unificação dos continentes, cumprindo, deste modo, a predestinação divina de os portugueses construírem um Império. “O Mostrengo” simboliza os perigos com que o herói se confronta diante do desconhecido. Esse herói plural é designado o “homem do leme”, uma sinédoque referente a uma coletividade que vence os seus medos e triunfa sobre os limites da humanidade, conferindo um tom épico ao poema. Do mesmo modo, o poema “Mar Português” defende a importância do sofrimento na superação dos limites. No final desta parte, é feita uma “prece” que mostra um desejo de superação da decadência visível no presente. Permanece a esperança de uma futura renovação divina, não passando esse sonho, no entanto, de uma utopia, que nem por isso deixará de ser o primeiro e último propósito do herói da Mensagem.
A última parte simboliza a decadência de Portugal, seguida pela manifestação de um sonho de renovação. Pessoa defende o advento do «Quinto Império», um império universal e espiritual que substituirá os quatro antecessores. Para tal se realizar, é necessário que o ser humano se desprenda da felicidade supérflua, do conforto e da passividade, e que enfrente a insatisfação inerente à natureza humana na forma de ambição, da «loucura» ficando disposto a superar as dificuldades e a distinguir-se dos demais, distanciando-se da mediocridade. O terceiro “Aviso”, cuja ausência de título configura uma co-referência com o autor do «livro», faz transparecer o sofrimento de Pessoa resultante da decadência da nação, que se refugia num futuro redentor. As diversas interrogações evidenciam a sua ansiedade, uma expectativa pela vinda de uma figura mítica que salvará a Pátria através da renovação espiritual. O poema final, “Nevoeiro”, apresenta críticas à indefinição, nomeadamente a de valores, transmitindo ideias de morte e de fragmentação que assombram a Pátria: “Ninguém sabe que coisa quer / (…) Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…” in “Nevoeiro”. Pessoa finaliza a obra com o apelo “É a Hora!”, uma exclamação que impele os seus conterrâneos coevos a tomarem a iniciativa com o objetivo de inverter a situação de decadência em que se encontram e restaurar a glória que o povo português experimentou em tempos.
Na Mensagem, os heróis ultrapassam, assim, a realidade histórica em que se inscrevem e adquirem o estatuto de mito, servindo de modelos de superação humana. Pessoa faz renascer o mito do sebastianismo com a intenção de exortar outros a tomarem o sonho que outrora moveu D. Sebastião, ansiando a renovação de Portugal e a construção de um novo império, de caráter universal e espiritual.

Autora:  Oleksandra Sokolan, 12º B
Prof. João Morais

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Cenário de Resposta - Texto Argumentativo


A importância da esperança

          Entre as variadas emoções com grande peso na vida humana destaca-se a esperança – uma disposição do espírito que pressupõe confiança de que algo se irá realizar. A esperança requer otimismo e perseverança face às adversidades que inevitavelmente irão surgir. Perder a esperança traduz-se na perda da força que nos move adiante nos momentos mais difíceis.
         Toda a gente se depara com dificuldades e fracassos ao longo da vida. Isso é uma verdade absoluta, pelo que não é produtivo focarmo-nos naquilo que correu mal a ponto de não conseguirmos continuar com a vida. É preciso ter coragem para reconhecer as dificuldades, para de seguida avançar com um plano. Ter esperança e não fazer qualquer esforço para conquistar os objetivos não é o caminho que nos é exigido. Tomemos o exemplo dqueles que lutaram contra o Estado Novo em Portugal. Infelizes com a sua realidade, tinham consciência de que a luta não seria fácil, mas não cederam aos seus medos e às suas dúvidas. Alguns capitães fizeram reuniões clandestinas, as quais deram origem ao Movimento das Forças Armadas, o movimento militar responsável por derrubar o regime autoritário do Estado Novo e instaurar a democracia em 25 de abril de 1974. Conquistaram o medo das consequências que poderiam surgir após a sua desobediência, movidos por sentimentos de revolta e pela esperança de um futuro melhor.
Existe uma diferença entre expectativa e esperança. Uma expectativa é temporária, um sentimento forte de que algo deveria acontecer no futuro e que conduz, muitas vezes, à desilusão. Não sentimos grande alegria quando uma expectativa é cumprida, pois partimos do princípio de que tal era suposto acontecer, que era um direito nosso. Mas quando algo não progride de acordo com o esperado, a deceção é nítida. Por outro lado, a esperança é permanente e torna-nos fortes para seguir em frente, movidos por um desejo de algo maior. Não é algo que tomamos como garantido, pelo que, quando se realiza, traz uma grande felicidade. Como exemplo, podemos indicar a esperança de que uma empresa que abrimos poderá ser bem sucedida, enquanto trabalhamos para que ela progrida com um objetivo maior em mente. No entanto, não devemos acreditar que o sucesso nos é garantido, não ter apenas a expectativa de que temos o direito ao sucesso, pois isso só levar-nos-ia à frustração nos momentos de dificuldade. Devemos, sim, ter uma atitude humilde e crítica para aceitar as falhas e analisar o que poderia ser feito para melhorar o resultado.
         A esperança, embora importante para atingir os nossos objetivos, não é suficiente se não for aliada à perseverança e a uma atitude de autorreflexão acerca daquilo que correu mal e que pode ser melhorado.

Trabalho realizado pela aluna Oleksandra Sokolan (12º ano B)
Prof. João Morais       

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Texto Argumentativo...



Jovens, os agentes da mudança
            A nossa sociedade está constantemente em mudança, sendo os jovens uns dos principais responsáveis por isso devido à sua energia, às suas ideias inovadoras e ao constante questionar o homem e o mundo, o que é normal nesta faixa etária. Assim, a juventude pode produzir importantes alterações no funcionamento da sociedade.
            Os jovens são caracterizados por questionarem o que não lhes parece bem, de forma autoritária e não pensando muito nos riscos que correm. Desta forma, muitas vezes não concordam com alguns princípios da sociedade e não têm medo de os contestarem promovendo a mudança desses princípios.
            Como exemplo disto temos o movimento hippie, que foi um movimento de contracultura dos anos sessenta e que teve grande adesão nos Estados Unidos, mas que influenciou globalmente muitos países do mundo. Os hippies eram, na sua maioria, jovens e estavam contra a violência, contra as guerras e contra o capitalismo. Assim, organizaram grandes protestos contra a Guerra do Vietname, que decorria na altura, vestiam-se de forma diferente e tinham um estilo de vida alternativo. Acabaram por ser bem sucedidos na luta pela paz, pois os Estados Unidos acabaram por retirar as suas tropas do Vietname, tendo o movimento hippie tido bastante influência nesta decisão do governo americano.
            Outra característica pela qual os jovens são conhecidos são as suas ideias inovadoras e a adesão ao que é recente, não tendo medo de abraçar novos projetos e aventurarem-se no desconhecido
            Como exemplo desta inovação que se vê nos jovens, temos Steve Jobs, que desenvolveu o primeiro computador pessoal quando tinha cerca de vinte anos. A partir disto, houve grandes avanços na informática sendo ele o precursor dessa evolução.
            Referindo-me ainda à informática, conseguimos observar hoje em dia os jovens enquanto a porta de entrada das novas tecnologias na nossa sociedade contribuindo para a sua popularidade e para a sua ampla utilização.
            Concluindo, os jovens são responsáveis por um elevado número de mudanças que ocorreram, que ocorrem e que ocorrerão na sociedade. A sua proatividade e o facto de não se submeterem facilmente às regras sem compreenderem o seu sentido contribui para que toda a sociedade reflita acerca do que é contestado por eles. Desta forma, a juventude faz o futuro e leva o desenvolvimento às comunidades onde se inserem.
Autor: André Silva, 11º A
Prof. João Morais

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Alberto Caeiro... Ficha e Cenário de Resposta!



  
FICHA DE PORTUGUÊS (12º ano B, 2017/18)    Prof. João Morais                      -----------------------------------------------------------------------------------





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   Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estacões
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me veem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Poema Primeiro de Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro









Faz uma análise do texto transcrito, atendendo aos seguintes tópicos:
- significado de «rebanhos», tendo em conta a associação com o nome do livro de que o poema foi extraído;
- identificação eu-pastor enquanto ponto de partida para uma identificação  mais vasta com a natureza;
- desejo de abolição da consciência;
- vida comandada pelo primado das sensações;
- significado da saudação aos leitores;
- campos lexicais dominantes;
- conceito de poeta;
- simplicidade lexical e sintática;
- a enumeração, a comparação e a personificação;
- estrofe, métrica, rima.

Cenário de resposta


Autora: Margarida Costa – 12º B
Prof. João Morais


O poema “Eu nunca guardei rebanhos” é o primeiro de quarenta e nove poemas que constituem livro O Guardador de Rebanhos, do heterónimo Alberto Caeiro de Fernando Pessoa. A palavra “rebanhos” surge tanto neste poema como no título do livro de Caeiro e é uma forma de o sujeito poético sentir muita coisa ao mesmo tempo. De certa forma, esta palavra serve como a multiplicação dos sentidos do eu poético na proporção dos objetos sobre os quais incidem os sentidos do sujeito lírico.

Neste poema o sujeito poético considera-se um pastor por metáfora (“Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse.” - vv. 1-2), reduzindo os seus pensamentos àquilo que é concreto, àquilo que é apenas apreendido pelos sentidos, na ideia de primado das sensações sobre as quais assenta a teoria poética de Caeiro (“Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estações / A seguir e a olhar” -vv. 3-6). De pastor o sujeito poético tem o deambulismo, ato de andar sem destino, absorvido pelo espetáculo da variedade das coisas, deixando-se guiar pelas sensações e instintos (“A seguir e a olhar.” - v. 1). O eu poético também manifesta intimidade com a natureza (“E anda pela mão das Estações” - v. 5), havendo grande comunhão entre ambos, pelo facto de o poeta se considerar pastor, o que se compagina com a ingenuidade e a simplicidade que representa no poema (“Toda a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado.” - vv.7-8).
Nas estrofes 3 e 4 o sujeito poético defende que a abolição da consciência e a recusa do ato de pensar são a via para alcançar a paz e a felicidade. O poeta afirma sentir tristeza por “saber” que os seus sentimentos são “contentes”, pois sabê-lo implica desde logo conhecimento que é trazido através do ato de pensar (“Os meus pensamentos são contentes. / Só tenho pena de saber que eles são contentes” - vv.21-22), mas, se não tivesse conhecimento dos seus sentimentos, estes não seriam “contentes” e “tristes” (a tristeza advém-lhe da consciência de saber) mas sim “alegres” e “contentes” (“Porque, se o não soubesse, / Em vez de serem contentes e tristes, /Seriam alegres e contentes.” - vv.23-25). Para o sujeito poético, ser feliz e contente é ser guiado pelas sensações do momento e pensar provoca tristeza, desconforto, pressupõe mal-estar, acabando até por compará-lo com a situação de andar à chuva e ao vento (“Pensar incomoda como andar à chuva / Quando o vento cresce e parece que chove mais.” - vv.26-27).
Como os pensamentos do sujeito poético se reduzem ao concreto, apreendido pelos sentidos, o poeta é por isso sensacionista e a sua vida é comandada pelas sensações, pois é através delas que ele vive em equilíbrio com a natureza, aceitando a ordem natural das coisas, e que reduz o abstrato ao concreto. O poeta recorre a uma hipálage com traços de personificação, uma vez que atribui a uma parte de si (“sossego”) uma característica dele próprio (“justa”) e da natureza (“natural”) para caracterizar a sua relação com a natureza (“Mas a minha tristeza é sossego / Porque é natural e justa” - vv.14-15), sendo o “sossego” tomado como um estado da natureza. O poeta deseja ser um “cordeirinho” ou até mesmo todo o “rebanho” para poder estar em maior contacto com toda a natureza, a sentir, a tocar, a ouvir, a olhar (“E se desejo às vezes, / Por imaginar, ser cordeirinho / (Ou ser o rebanho todo / Para andar espalhado por toda a encosta / A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), / só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol / Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz / E corre um silêncio pela erva fora.” - vv.31-38)
Na oitava estrofe o poeta saúda os leitores de forma a propor-lhes uma atitude de simplicidade, algo que é apenas apreendido pelos sentidos, sem leituras filosóficas exageradas, proporcionando-lhes assim uma leitura que se configura com o sossego da fricção espontânea das sensações. Chega mesmo a “tirar-lhes o chapéu”, gesto de simplicidade de um campesino, sinal de respeito para com os leitores e também ato automático de quem age sem ser comandado pelo pensamento (“Saúdo todos os que me lerem, / Tirando-lhes o chapéu largo”, vv.49-50) (“Saúdo-os e desejo-lhes sol / E chuva, quando a chuva é precisa,” - vv.53-54).
O sujeito poético tem a noção de que é poeta, mas para ele ser poeta nunca foi um objetivo, um plano prévio, uma ambição (“Ser poeta não é uma ambição minha”, vv.29), o que se relaciona também com o paganismo, ou seja, ele descrê de tudo o que são ideias instituídas, visto que não consegue articular-se com a realidade social (constante em Fernando Pessoa, tanto nos heterónimos com no ortónimo). Outras características do sujeito poético como poeta estão presentes da sétima estrofe através de uma enumeração de ações: são a forma como escreve, a forma como sente e a forma como se vê a ele próprio (“Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, / Sinto um cajado nas mãos / E vejo um recorte de mim” - vv.41-43).
Passando a uma análise formal do poema, podemos verificar a ausência de isomorfismo e de isometrismo. O poeta recorre ao verso solto, não existindo rimas, o que confere mais simplicidade e naturalidade ao poema. Tem um estilo coloquial, pois o léxico e a sintaxe utilizados são de caráter simples e espontâneo, sem grandes elaborações frásicas e sintáticas, assentando o seu domínio em dois grandes campos lexicais dominantes: a Natureza e Sentidos, valores máximos do conceito da poesia de Caeiro.
Concluindo, este poema advoga uma síntese de calma e de movimento deambulatório do sujeito lírico num presente que se atualiza a cada momento e objetiva o desacordo entre o que se pensa e a vida que acontece. Caeiro privilegia as sensações, conferindo uma especial importância ao ato de ver, sendo um poeta sensacionista e bucólico, e exalta a vida no campo, a simplicidade e a ingenuidade dos costumes, a tranquilidade e a riqueza do contacto com a natureza, e os hábitos peculiares dos pastores. Como poeta da simplicidade e da clareza total, Alberto Caeiro sente-se feliz, pois (sempre) consegue realizar-se, vendo claramente.